Dois romances excelentes sobre o século da barbárie

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Nos últimos quinze dias embrenhei-me nas (no total, quase mil) páginas destes dois romances históricos, baseados em rigorosas pesquisas, por parte dos seus autores, respetivamente, o britânico Martin Amis e o cubano Leonardo Padura. O primeiro narra-nos a vida de três personagens, em Auschwitz, e, o segundo, as peripécias que envolveram a morte de Trótski, perpretada pelo catalão Ramón Mercader. Como pano de fundo, respetivamente, nazismo e estalinismo, os dois regimes totalitários da história da Humanidade e da história do século XX.

O que há de comum nestes dois regimes? Em primeiro lugar, ambos se baseiam em profecias, em doutrinas que apregoam um destino histórico (aquilo que Popper apelidou de historicismo). Em segundo lugar, ambos apostam na destruição da capacidade dos indivíduos pensarem por si mesmos, na coletivização da sociedade, no seio da qual o indivíduo é apenas uma peça numa engrenagem; um anónimo, sem ambições ou vontade, dentro da massa social.

Sem direito a pensar, cada indivíduo executa cegamente o que dele se espera – inclusive matar ou morrer – e deixa de ter vida pessoal. A despersonalização acaba por acontecer, de facto. E só quando a grande massa da população alcança esse estádio se atinge igualmente aquilo a que podemos chamar de Estado totalitário.

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As nossas edições:

  • Martin Amis, A Zona de Interesse, Editora Quetzal, 1ª edição, Lisboa, 2015.
  • Leonardo Padura, O Homem que Gostava de Cães, Porto Editora, 1ª edição, Lisboa, 2011.

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Autor: Jorge Costa

Fez percursos académicos nas áreas das Filosofia, Comunicação Social, Economia, Gestão dos Transportes Marítimos e Gestão Portuária, e estuda outras disciplinas científicas. Interessa-se igualmente por Arte, nas suas diversas manifestações, e também por viagens. Gosta de jogar xadrez. O seu autor preferido, desde que se lembra, é Karl Popper. Viveu em locais diversos, sobretudo em Portugal e no Brasil, pelo que se considera um cidadão do mundo. Atualmente vive em Cabanas, no Sotavento algarvio. Gosta de revisitar, sempre que pode, a bela cidade de Lisboa e, nela, o bairro onde nasceu, Alfama, o mais popular da capital, de traça árabe, debruçado sobre o Tejo — esse rio mítico, imortalizado por Camões e Pessoa, poetas maiores da Língua Portuguesa. Não é, porém, um bairrista, característica que deplora, a par dos clubismo, partidarismo e nacionalismo. Ama a Liberdade.

3 opiniões sobre “Dois romances excelentes sobre o século da barbárie”

  1. Mesmo antes de ler as duas últimas palavras, lembrei do livro da Hannah Arendt “As origens do totalitarismo”. De certeza uma obra lida por ambos os autores. E você sempre com algo bom a oferecer!

  2. Devem ser de facto dois livros deveras interessantes,até porque a matéria está novamente a ser falada e discutida devido ao que se está a passar na Europa em relação ao ressurgimento
    de partidos de extrema direita, neo-nazis e similares.

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