O individualista

mariana
Mariana Mortágua. O novo fenómeno da política (à) portuguesa.

Uma palavra que continua a fazer parte da retórica da extrema esquerda é o termo “individualismo”. Os demagogos e demagogas oficiais (como Mariana Mortágua) continuam a confundir as pessoas, deliberadamente ou por mera ignorância, fazendo a associação entre “individualismo” e “egoísmo”, considerando-os sinónimos, embora estes conceitos, no jargão da sociologia política, nada tenham a ver um com o outro. Essa confusão propositada é, na realidade, muito antiga e sempre favoreceu os interesses dos extremistas e radicais.

Porém, a verdade é que existe uma visão político-social (e mesmo filosófica), que ficou conhecida na história como “coletivismo”. Os regimes totalitários são todos coletivistas, no sentido em que o indivíduo não pode opor-se-lhe, sob pena de ser “engolido” (entenda-se, preso, morto ou desterrado) por ele. Ora, a visão política que se opõe ao coletivismo é, como não podia deixar de ser, o “individualismo”, ou seja, a visão que defende o direito às críticas e opiniões individuais, sem que os sujeitos das mesmas sejam “engolidos” pelo Poder, pelo Estado. Neste sentido, os regimes individualistas são aqueles onde existem as liberdades individuais e o chamado “Estado de Direito”. Assim, “coletivismo” e “individualismo” são claramente antónimos e quanto a isto não pode haver qualquer dúvida.

Por outro lado, o antónimo de “egoísmo” é, como toda a gente sabe “altruísmo”, ou seja, “egoísmo” e “individualismo” são coisas completamente diferentes, uma vez que um indivíduo pode ser individualista (defender o Estado de Direito) e simultaneamente altruísta, bem como é perfeitamente possível ser-se egoísta e coletivista. Do ponto de vista político, ser individualista significa ser autónomo – e a autonomia humana pode (e deve) ser vista como um processo em curso.

Um processo que se iniciou quando o homem se emancipou da tribo e começou a pensar sobre o mundo de uma forma racional. Do pensamento racional nasceram a filosofia e as ciências, enfim, nasceu uma nova cultura. Antes, nos tempos tribais, não havia a autonomia pessoal, próprio do individualismo. Cada indivíduo tinha o seu papel bem definido no seio fechado da tribo, era, por assim dizer, uma peça do coletivismo tribal, não possuía pensamento crítico, tal como, posteriormente, nas sociedades totalitárias do século XX – nazismo e estalinismo – quando a liberdade de opinião era brutalmente reprimida.

Ora, o que os apologistas do coletivismo defendem é, conscientemente ou não, um regresso à sociedade fechada e previsível da tribo. Talvez esta afirmação soe um pouco excessiva, mas basta ler algumas obras (como A Origem da Desigualdade entre os Homens, de Rousseau, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels, e O Capital, de Marx) para se comprovar que ela faz todo o sentido. O ambiente da tribo representa para os coletivistas uma espécie de paraíso perdido, com seu modo de vida harmonioso e integrado: homem e natureza.

O fio condutor das visões destes autores é a ideia de degenerescência (os nazis usaram-na para adotarem as suas medidas eugénicas), que percorre a nossa cultura desde os tempos de Platão: ao abandonarmos o paraíso tribal, iniciámos uma descida aos infernos. Esta ideia faz sentido, se pensarmos que, a partir de certo ponto, as mudanças sociais ocorreram muito mais depressa que as alterações biológicas, e a nossa mente funciona ainda, em larga medida, como funcionava no período tribal, há milhares de anos, não tendo tempo para se ajustar a novas formas de sociedade.

(Veja-se a nossa necessidade de pertença a entidades coletivas – pátrias, nações, cidades, bairros, religiões, ideologias, partidos políticos, clubes de futebol, etc. – entidades que estamos dispostos a defender, não de uma forma racional e livre, mas apenas porque são a tribo à qual pertencemos; veja-se igualmente o fenómeno de massas que foi o nazismo, e o seu caráter tribal e irracional, etc., etc.).

A ideia de degenerescência é constatável no discurso pessimista dos extremistas de Esquerda (e de Direita): tudo o que acontece na nossa cultura corrompida é mau; a sociedade capitalista resulta de uma sequência de pecados – o comércio, o dinheiro, a industrialização, a mais-valia, os bancos, os mercados financeiros – que nos irá conduzir ao colapso. É por isso que é preciso regressar à segurança, ao mundo bem ordenado e ao comunismo da tribo.

Tendo uma visão oposta, o individualista não deseja este regresso à sociedade fechada. Aceita um futuro aberto, que não sabe qual é, mas que está disposto a construir. Enfrenta com confiança e otimismo os desafios da liberdade.


foto retirada de http://www.vip.pt