Honestidade

A honestidade é uma característica raríssima no ser humano. Como tudo o que é raro, tem um valor inestimável, incalculável e causa, em quem admire a singularidade e a integridade, a mais profunda admiração.

E não nos refrimos aqui à honestidade de circunstância, de condição ou de oportunidade. Não, refiro-nos à honestidade por natureza, por índole, por convicção.

Sobre este tema existe um conto belíssimo, “Singularidades de uma Rapariga Loira”, de Eça de Queirós, onde o protagonista rompe o noivado com a namorada, ao descobrir que ela é uma ladra. Este tipo de questões, relacionadas coma integridade do indivíduo, muito caras a Queirós, são, aliás, um dos principais motivos de sua cortante crítica social.

Tudo isto se relaciona, como é evidente, com a questão da educação. Educação nas famílias e educação nas escolas.

Nos meios mais pobres, onde o nível de escolaridade é mais baixo, as vítimas das pessoas desonestas são poucos indivíduos. É o primeiro grande tipo de desonestidade, o mais elementar e o de menor valor: aquele do habilidoso que não paga o que pediu emprestado ou fiado, que não paga ao senhorio, que pratica pequenos furtos.

O segundo grande tipo de desonestidade é o de pessoas com formação, na maior parte dos casos, superior, onde as vítimas são já um grande número de   indivíduos, um clube de futebol (Vale e Azevedo), um banco (Oliveira e Costa) e, por vezes indiretamente, toda a sociedade: o caso BPN é, neste particular, paradigmático.

Por fim, o terceiro grande tipo é exclusivamente moral dado que, do ponto de vista social ou legal, nem sequer é considerado desonestidade. Referimo-nos aos “quants” da bolsa, aos especuladores de todo o género, formados  em questões financeiras  pelas melhores universidades do mundo e que ganham fortunas colossais em pouquíssimo tempo. Aqui, as vítimas somos todos nós, e os efeitos podem ser devastadores, como foram em Wall Street, em 2008, com consequências desastrosas para o mundo inteiro e que abriu a crise que ainda hoje estamos a viver.

A honestidade ou a desonestidade são, como vimos, comportamentos que atravessam todas as classes sociais, embora as causas e as consequências sejam diferentes.

Não se pode acabar com a desonestidade por ideologia, por decreto ou por repressão. A desonestidade apenas pode ser diminuída pela educação – uma educação que mostre claramente o valor incalculável, para a sociedade e para o indivíduo, do honesto cidadão.