Liberalismo e marxismo

No que se assemelham ambas as teorias?

Sobretudo por cada uma delas se arrogar ser a última palavra, a única que resolverá, realmente, os problemas da humanidade.

E, na verdade, a racionalidade subjacente a cada uma delas, o engenho e arte de seus mais ilustres representantes – Adam Smith e Karl Marx – são incontestáveis: teoricamente ambas são perfeitas. O que leva a optar por uma ou outra, já é outra questão. Como todas as verdades absolutas, como todos os paradigmas, acreditar ou não, parece-me em larga medida, uma questão de fé.

Uma análise histórica, que nem necessita ser muito aprofundada, mostra, porém, que ambas falharam. Se o marxismo já deu, em anos mais ou menos recentes, provas suficientes do enorme falhanço que constituem as suas políticas económicas, bastará olhar para o mundo de hoje para perceber o estrondoso falhanço das políticas liberais. A desregulação dos chamados mercados só poderia ter como consequência, mais tarde ou mais cedo, um enorme buraco na economia, o qual, por sua vez, seria sempre tapado pelos do costume: os mais desfavorecidos.

Mas, se sem dúvida ambas teorias são bem intencionadas e logicamente perfeitas, por que falharam e, em minha opinião, falharão sempre? Simplesmente porque não têm em conta um aspecto fundamental – a questão humana. Os humanos, considerados o “animal racional”, não se comportam racionalmente. No caso do marxismo, detendo o poder absoluto, passam a sentir-se uma espécie de deuses, com direito a trono perpétuo, mordomias e, quantas vezes, luxos que, uma vez experienciados, não querem perder mais. Quem se opuser às orientações superiores do partido será preso ou aniquilado. O liberalismo desenfreado, por seu turno, permite a especulação e a busca de lucros astronómicos, algo que sempre terá os seus protagonistas, proporcionando, para além do aumento da desigualdade social, o aparecimento de buracos negros, que a ganância humana sempre criará. É esta a situação actual do mundo “desenvolvido” – um enorme buraco – cavado a partir da desregulamentação que a lei Glass/Steagall, em 1999 (“é proibido proibir”), em pleno mandato de Bill Clinton, veio implementar. Em larga medida graças a isso, a fome e a miséria voltaram à Europa.