Ranking dos 10 Políticos Portugueses Mais Detestáveis

plenário1º- Cavaco Silva, “O Conspirador”

2º José Sócrates, “O Engenhocas”

3º Nuno Crato, “O Contabilista”

4º Paulo Portas, “O Oportunista”

5ª Raquel Varela, “A Anarquista”

6ª Catarina Martins, “A Sonhadora”

7º Marques Mendes, “O Concentrado”

8º Rebelo de Sousa, “O Quadrilheiro”

9º Poiares Maduro, “O Infrassumo”

10º Passos Coelho, “O Liberal”

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O último ranking anterior data de 23 de outubro de 2014. Em relação ao mesmo, salienta-se a entrada de duas senhoras, bem para o meio da tabela, Raquel Varela, ” A Anarquista”, e Catarina Martins, “A Sonhadora”. Saídas de João Semedo, “O Inquisidor”, e Nuno Melo, “O Malandreco”. Cavaco, “O Conspirador”, mantém a liderança há sete rankings consecutivos, ou seja, desde há mais de três anos. Nuno Crato, “O Contabilista” entra no pódio.

O homem das duas vidas: Cristóvão Ferreira e Sawano Chûan

1- A primeira vida: Cristóvão Ferreira.

Cristóvão Ferreira nasceu por volta de 1580, em Zivreira, concelho de Torres Vedras. Ingressou na Companhia de Jesus com 16 anos de idade, em Coimbra, onde tomou os primeiros votos em 27 de dezembro de 1598, ingressando no Curso de Artes, a primeira etapa da sua longa carreira jesuítica.

Cristóvão Ferreira tinha uma forte vontade de embarcar para a Ásia, motivado pelas notícias de conversão de muitos asiáticos à fé cristã, com especial destaque para os japoneses. Assim, em 1600, Cristovão interrompe os estudos e parte para o Oriente, acompanhado de vinte  companheiros jesuítas. Sabe-se que passou por Goa e que chegou a Macau em fins de 1600 ou inícios de 1601. Macau era na época o centro de irradiação e de acolhimento de missionários e o mais importante foco das missões no Extremo Oriente[1]. Ali, no Colégio da Madre de Deus, ele prosseguiu os seus estudos em Filosofia e em Teologia, tendo sido ordenado padre no final de 1608. Completava assim o cursus honorum destinado a padres professos que faziam os quatro votos: de pobreza, castidade, obediência à Ordem e obediência ao Papa.

Ainda em Macau, Cristóvão Ferreira adquire os conhecimentos básicos de língua japonesa e familiariza-se com os costumes e cultura da sociedade onde iria missionar: havia muitos japoneses a residir em Macau ou de passagem pelo território, além dos estudantes nipónicos que frequentavam o colégio. Em 1609 embarca para o Japão, tendo ali chegado em 29 de junho do mesmo ano. Nesta altura, Cristóvão Ferreira teria cerca de 29 anos e iniciava a etapa da vida para a qual se preparara – o trabalho de missionário no terreno. Sem o saber, ele fazia a sua viagem definitiva, pois não sairia do Japão até morrer, 41 anos depois.

O seu trabalho de missionação deu-se em condições cada vez mais difíceis. As boas perspetivas que os primeiros missionários encontraram – com destaque para Francisco Xavier – não se verificavam mais, e a situação vinha-se deteriorando à medida que a reunificação do Japão se tornava efetiva, graças à ação de três grandes chefes políticos e militares: Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Yeyasu. Este último foi o fundador do xogunato Tokugawa ou de Edo (atual Tóquio), que dominou o arquipélago até 1868. O cristianismo foi considerado uma ameaça para este processo de unificação política, religiosa e ideológica. Os padres cristãos foram considerados suspeitos de estarem ao serviço de um rei estrangeiro (fosse de Portugal ou de Espanha) que teria como intenção última a conquista do território nipónico.

Assim, ainda em 1587, Toyotomi Hideyoshi promulgou o primeiro decreto anticristão, mas este não teve grande efeito face aos interesses comerciais em jogo, uma vez que os governantes japoneses não queriam perder um negócio extremamente lucrativo, cujos principais protagonistas eram os portugueses, e os jesuítas os intérpretes e intermediários que facilitavam os contactos entre as partes. Mas a ameaça continuava latente e, dez anos depois, deu-se a primeira execução coletiva. Foram condenados à morte por crucificação e executados, em Nagasaki, vinte e seis cristãos. Além da ameaça que representava o processo de unificação japonesa, começaram a surgir também divisões entre os missionários das várias ordens religiosas no terreno, como era o caso de dominicanos, franciscanos, agostinhos e mendicantes. A isto juntou-se a cobiça de espanhóis e, sobretudo, de holandeses, tendo estes sido os únicos autorizados a instalar uma feitoria em Hirado, em 1609. Os ingleses também apareceriam em 1613, mas retiraram-se em 1623.

Em 1610, Cristóvão Ferreira encontra-se no seminário de Arima, lecionando Latim e aprofundado os seus conhecimentos da língua japonesa. Dois anos depois, o dáimio da cidade ordena o fecho do seminário. A maior parte dos missionários residentes refugia-se em Nagasáqui. Cristóvão, porém, segue para Quioto, provavelmente para substituir o padre Carlo Spinola, destacado para Nagasáqui.

Entretanto as medidas dos governantes japoneses vão completando o cerco aos missionários, o qual se fecha com a publicação de um édito, em 27 de janeiro de 1614. Através dele se ordenava a concentração de todos os missionários no porto de Nagasáqui, para que abandonassem o Japão, e a destruição de igrejas, capelas e casas de missionários; era também proibida a prática do cristianismo, bem como se obrigava cada japonês a inscrever-se num templo budista. Ao contrário das medidas anteriores, apenas implementadas em parte, este édito é rapidamente cumprido, dado que estavam reunidas as condições políticas e económicas para que tal acontecesse: por uma lado, Tokugawa Ieyasu derrotara os opositores internos na batalha de Sekigahara, em 1600, e conquistara o título de xogum, reforçando sua autoridade pessoal, centralizando o poder em Edo (Tóquio); por outro lado, os portugueses já não eram necessários, nem os jesuítas, dado que holandeses e ingleses poderiam fazer o comércio com o exterior, sem os inconvenientes do proselitismo religioso dos lusitanos.

Os missionários, a maioria jesuítas, e um punhado de franciscanos e dominicanos, são então reunidos no porto de Nagasáqui e deportados, uma parte para Macau e outra parte para Manila. Apesar disso, cerca de cinquenta mantiveram-se clandestinamente no território. Um deles foi Cristóvão Ferreira. A sua vida corria graves perigos dado que a perseguição aos cristãos se intensificou com uma lei de 1616, que determinava a condenação à morte dos que protegessem ou ocultassem os missionários cristãos. Seguiram-se prémios pecuniários para quem denunciasse os cristãos. Muitos foram mortos.

Cristóvão Ferreira viveu os dezanove anos seguintes na clandestinidade, usando disfarces, vivendo entre Quioto, Nagasáqui e Osaka. O seu trabalho e a dedicação reconhecida à causa cristã, guindaram-no à posição de vice-provincial do Japão, o que ocorreu em 23 de dezembro de 1632. Tinha a seu cargo a elaboração de relatórios anuais sobre a atividade da missão e também muitos relatórios sobre martírios. O texto mais conhecido e inflamado de um martírio foi o que escreveu (em 22 de março de 1632) sobre o jesuíta japonês Antonio Ishida, que resistiu a diversas torturas, entre 1629 e 1632, até ser morto na fogueira em setembro desse ano.

2- A fossa

Como vimos, a repressão aos cristãos intensificou-se, sobretudo a partir dos finais da década de 1620, coincidindo com o início do mandato do terceiro xogum Tokugawa Iemitsu (1623-1651), tendo sido tomada a decisão de extirpar de vez o cristianismo.  As autoridades nipónicas passaram a considerar os martírios um motivo para o aparecimento de novos cristãos, dado que punham a nu a enorme convicção e força dos missionários, e então decidiram apostar na apostasia. Refinaram as técnicas de tortura. A mais temida era a suspensão na fossa (ana-tsurushi), que foi aplicada pela primeira vez em julho de 1633. A vítima era pendurada de cabeça para baixo e esta  quase tocava numa fossa cheia de excrementos. O corpo era atado para que o sangue não descesse ao cérebro, e era feita uma ligeira incisão na têmpora como precaução, para que o sangue escoasse lentamente. Os gases da fossa funcionavam como uma parcial anestesia, tornando o sofrimento mais prolongado. A vítima só tinha possibilidade de salvar-se fazendo um sinal com uma das mãos, deixada livre para o efeito, mostrando assim que cedia às exigências dos torturadores.

Cristóvão Ferreira foi preso em setembro de 1633 e submetido à tortura da fossa, juntamente com mais sete padres e noviços, em  18 de outubro do mesmo ano. Entre eles encontravam-se figuras proeminentes das missões, como António de Souza, superior dos dominicanos, e o padre jesuíta japonês Julião Nakaura, um dos integrantes da embaixada que foi de Kyushu a Roma (1582-1590), a primeira a sair do Japão rumo à Europa. Todos os companheiros de suplício de Cristóvão pereceram. Julião Nakaura resistiu três dias; outro aguentou nove dias; mas Cristóvão Ferreira, ao fim de cinco horas de tortura, apostatou.

Tendo em conta o percurso de Cristóvão Ferreira, uma carreira jesuítica com mais de 37 anos, cerca de 19 dos quais na dura clandestinidade; sabendo-se que o martírio era algo aceite quando não desejado pelos missionários; sendo certo que o próprio Cristóvão sabia que, mais cedo ou mais tarde, seria capturado e torturado, a sua rendição aparece aos olhos de todos, e talvez sobretudo dos próprios torturadores, como algo surpreendente. Mais surpreendente ainda depois dos relatórios sobre martírios que escreveu, onde exaltava o comportamento de muitos de seus confrades, que pereceram sem nunca renunciarem à sua fé. Além de que, um mês antes da sua apostasia, já no cárcere, referindo-se aos companheiros que estavam com ele, escreveu: “pela graça de Deus todos estão com muito ânimo e desejo, esperando por aquela hora ditosa”.

Após a rendição, provavelmente, seguiu-se o efumie, cerimónia pela qual os apóstatas tinham que pisar imagens da Virgem Maria ou de Jesus Cristo. O leque de interpretações possíveis sobre a apostasia de Cristóvão é tão vasto que não é lícito nem prudente apostar em qualquer uma delas. Certo, certo é que a notícia teve enorme impacto quer dentro quer fora do Japão.

3- Reações

Assim, para as autoridades japonesas, empenhadas na campanha anticristã, a apostasia de Cristóvão Ferreira representou uma importante vitória, pois ficava provado ser possível vergar os cristãos. Já para estes, a notícia representou um enorme abalo. A estupefação foi tal que chegaram notícias contraditórias a Macau.

Dali se escreveram cartas secretas a Cristóvão Ferreira, incitando-o a reparar a apostasia com o martírio; e dali partiram consecutivamente alguns jesuítas, com a intenção de encontrá-lo e movê-lo ao arrependimento. Foram praticamente missões suicidas, pois era sabido que dificilmente os seus membros poderiam escapar à captura e à morte. A primeira tentativa foi levada a cabo pelo padre Marcello Mastrilli, que desembarcou no Japão em 1637, sendo imediatamente aprisionado e, depois de três dias na fossa, degolado, sem ter conseguido encontrar Cristóvão Ferreira. Dois anos depois deu-se a segunda tentativa, desta feita através do padre Pedro Kibe, que morreria na fossa em julho de 1639. No interrogatório a que foi submetido em Edo esteve presente Cristóvão Ferreira, já na pele de Sawano Chuan.

A terceira e última tentativa, que se desenrolou em duas fases, foi liderada pelo padre Giovanni Antonio Rubino. O primeiro grupo concentrou-se em Manila e chegou ao Japão em agosto de 1642. Era constituído pelo próprio Rubino (daí ter sido designado por Primeiro Grupo Rubino) mais quatro padres jesuítas e quatro dógicos. Todos foram capturados rapidamente e condenados à fossa em 17 de março de 1643. Não se sabe ao certo se nos interrogatórios a que foram submetidos esteve presente Cristóvão Ferreira. O Segundo Grupo Rubino era constituído por dez membros, entre os quais os padres Pedro Marques, Alfonso Arroyo, Francesco Cassola e Giuseppe Chiara, e chegaram ao Japão em 27 de junho de 1643. Foram imediatamente presos e submetidos a longos interrogatórios na cidade de Edo. Cristóvão Ferreira (na verdade, já Sawano Chuan) esteve presente, admoestando os prisioneiros a renegarem a sua fé, o que todos fizeram, sendo que mais tarde Alfonso Arroyo revogou a apostasia. Por seu turno, Giuseppe Chiara tornou-se o segundo renegado mais famoso, após Cristóvão Ferreira, sob o nome japonês de Okamoto San’emon.

O fervor religioso e a incredulidade fizeram com que muitas notícias da reconversão de Cristóvão Ferreira, a maioria por vias indiretas e sinuosas, chegassem a circular entre os jesuítas. Uma delas, dois anos após a sua morte, em 1650, dava conta de que ele se havia reconvertido e morrido mártir, após três dias na fossa. Essas notícias chegaram a colher alguma aceitação e foram inclusivamente partilhadas por historiógrafos da Companhia de Jesus, como António Franco e Daniello Bartolli. Inclusive, já no século XX, o historiador jesuíta Josef Franz Shütte, após analisar a documentação disponível, chegou à conclusão que Cristóvão Ferreira morreu corajosamente pela fé de Cristo.

4- A segunda vida: Sawano Chuan

As fontes mais fidedignas sobre a vida de Cristóvão Ferreira após a apostasia são de origem holandesa, sobretudo através dos diários dos responsáveis das feitorias holandesas de Hirado (até 1641) e de Deshima (a partir de 1641). Por volta de 1640, o xogum Tokugawa Iemitsu proibiu grande parte da atividade marítima e conduziu o Japão a um progressivo isolamento, vulgarmente designado por sakoku (país encadeado). As exceções a este corte com o exterior foram os mercadores holandeses (confinados desde 1641 à ilha artificial de Deshima), tendo-se mantido também o tráfico com os chineses; foram mantidas ainda relações, via Kagoshima e Tsushima, com os reinos de Ryuku e da Coreia.

É neste contexto de mudança que deve ser entendido o édito promulgado em 1639, o qual proibia os mercadores portugueses de traficarem com o Japão, significando na prática o seu banimento do território. Esta decisão seria tragicamente confirmada pelo destino da embaixada enviada de Macau, em 1640, apelando à revogação do édito e ao restabelecimento da viagem Macau-Nagasáqui. Dos 74 elementos desta expedição apenas 13 foram poupados para que relatassem o sucedido. Os restantes foram decapitados. É a partir deste período que existem bases mais sólidas sobre a vida de Chuan, que se ia aculturando, ao mesmo tempo que assistia a estes sucessos trágicos e tumultuosos.

Chuan permaneceu a maior parte da sua vida japonesa em Nagasáqui, sob as ordens de Inoue Chikugo no Kami Masashige (1585-1662), inspetor-geral da campanha anticristã, um inquisidor temível, que chegou a ser comparado a Adolf Eichmann[2], e que usou Chuan como intérprete, tendo-o enviado várias vezes à feitoria holandesa de Deshima. Convém dizer, nesta altura, que o português era a língua franca comercial do Extremo Oriente, utilizada por muitos japoneses, holandeses e ingleses nos seus contactos com os nativos. A partir da década de 1640, com a campanha anticristã apaziguada, Chuan tem tempo para se dedicar a atividades mais de acordo com os seus interesses.

Faz traduções, compilações e aperfeiçoa os conhecimentos de japonês, a ponto de ler o Taiheiki (épico escrito no final do século XIV) e outros clássicos japoneses. Escreve, em 1636, o pequeno tratado Kengiroku, no âmbito da propaganda anticristã do período Tokugawa, associando na obra o imperialismo europeu à atividade missionária. Refuta de forma virulenta o cristianismo, que considera pura invenção para enganar o povo. Considera a vida após a morte como um absurdo, bem como o inferno e o paraíso; nega a existência de um criador, dado que o universo sempre existiu; o juízo final é considerado um embuste, ridículo e escandaloso. O radicalismo de Chuan levou o filósofo Michel Onfray, já no século XXI, a considerar Cristóvão Ferreira/Sawano Chuan como “o quase primeiro ateu” da história da ateologia[3].

Sawano Chuan teve também um papel importante no processo de composição em japonês do tratado Kenkon Bensetsu (Exposição sobre os Céus e a Terra), na linha dos tradicionais Tratados da Esfera, e que conta com comentários críticos de Mukay Gensho (1609-1677)[4], um erudito neo-confucionista japonês. Ao que parece este tratado foi levado para o Japão por alguém do Grupo Rubino, talvez fosse até (segundo aventa José Miguel Pinto dos Santos) uma espécie de caderno de notas elaborado pelo próprio Giovanni Antonio Rubino, algo que se inseriria na linha dos comentários existentes na época, na sua maioria tendo como referência o “Tratado da Esfera” (De Sphaera Mundi, c. 1230), de Johannes de Sacrobosco. O papel de Sawano Chuan na composição parece ter sido apenas o de tradutor, o que não invalida que não tenha acrescentado interpretações próprias. Seja como for, o Kenkon Bensetsu foi dos livros mais lidos sobre cosmologia ocidental no Japão até finais do século XVIII, sendo esta afirmação confirmada pelo elevado número de cópias manuscritas conhecidas.

Chuan esteve ainda envolvido na elaboração de um tratado médico, Nanbanryu-geka hidensho (Tradição secreta da cirurgia dos Bárbaros de Sul). O único manuscrito conhecido refere o nome de Chuan, dando a entender ser ele o autor. Trata-se de uma obra que contém uma exposição sobre teoria humoral, seguida de prescrições para os vários tratamentos, uma farmacopeia e um glossário técnico[5]. No caso da autoria ser mesmo, como tudo indica, de Swano Chuan, os conhecimentos manifestados terão sido adquiridos após a apostasia, em contacto com a feitoria dos holandeses, pois aos jesuítas estava interdita a prática médica e a posse de livros da especialidade.

Em 3 ou 4 de novembro de 1650 Sawano Chuan morreu em Nagasáqui, com cerca de 70 anos de idade. Recebeu, de acordo com a tradição budista, o nome póstumo de Chum-joko Sensei. De acordo com os registos dos templos Zen de de Nagasáqui, os seus restos mortais foram depositados no cemitério de Kodaiji na mesma cidade. O estatuto que alcançou é atestado pelos monumentos aos antepassados erguidos, posteriormente, pela família Sugimoto (apelido do seu genro), primeiro em Edo e, já em 1941, em Tóquio. Em ambos, o nome de Chum-joko Sensei é o primeiro dos antepassados listados.

5- Conclusão

O que concluir sobre Cristóvão Ferreira/Sawano Chuan? Talvez que, tal como a dele, a vida de muitos portugueses foi naquela época, de facto, extraordinária. Por vã cobiça, por fé, por desespero, por destino, afinal. Ou nem por isso? A história de Ferreira pode levar-nos a pensar que somos mais adaptáveis que outros povos? Ou que somos apenas mais matreiros e oportunistas? Pouco importa. Pouco importa o que teria sido quando o que foi nos remete para tantas possibilidades: as mil e uma hipóteses de sermos nós próprios.

Tal como Fernando Pessoa, tal como tantos outros, a transmutação de Cristóvão Ferreira é a de todo um povo, ele próprio, transmutado.

Em 1966, saiu no Japão, ligado à história de Cristóvão Ferreira, o romance Chinmoku (Silêncio) de Shusako Endo (1923-1996), um japonês católico, que no mesmo ano receberia o prestigiado prémio literário Tanizaki, romance que seria publicado em várias línguas, incluindo o português[6]. O “Silêncio” centra-se na personagem de Sebastião Rodrigues, baseada na figura histórica de Giuseppe Chiara, um dos elementos do Segundo Grupo Rubino, um jesuíta que entra no Japão em busca de Cristóvão Ferreira, procurando descobrir as razões que o levaram a renegar a sua fé.

O sucesso alcançado por este livro levou outros autores a fazerem adaptações: filme do mesmo nome saído em 1971, com realização de de Masahiro Shinoda; ópera do compositor e poeta Teizo Matsunura; e sinfonia, composta em 2002, pelo músico escocês James MacMillan. É esperada já há alguns anos uma adaptação ao cinema pelo realizador americano Martin Scorsese. No entanto, em 1996, o realizador português João Mário Grilo dirigiu “Os Olhos da Ásia”, filme baseado na apostasia de Cristóvão Ferreira e na história dos quatro jovens que integram a chamada embaixada do Japão à Europa. O filme termina com um paralelismo entre Julião Nakaura, que morre pela fé na fossa, e Ferreira, que a abjura.

Mais recentemente, em 2003, o romancista francês Jacques Keriguy publicou “L’Agonie”[7], cuja ação abrange exclusivamente os cinco dias em que Cristóvão Ferreira foi submetido à tortura da fossa. Trata-se de uma narrativa extremamente bem fundamentada sob o ponto de vista histórico. Através de uma segunda pessoa que se dirige interiormente a Cristóvão Ferreira, são revisitadas as etapas fundamentais da sua vida de missionário, que o levam a consciencializar-se dos excessos e erros cometidos, da hipocrisia de certas práticas, das dúvidas e interrogações que o atormentaram[8]…

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Notas:

[1] Em Macau viveu também Camões, tendo sido aí que teve o único emprego que se lhe conhece: Provedor dos Defuntos.

[2] George Elison, “Deus Destroyed. The Image of Christianity in Early Modern Japan”, Harvard University Center Asia, 1998, p. 208.

[3] Michel Onfray, “Traité d’Atheologie”, Paris, Grasset, 2005 (edição portuguesa, Lisboa, ed. Asa, 2007).

[4] Após cada capítulo, Mukay Gensho faz um comentário crítico, melhor dizendo, reage às teorias expostas de uma forma que se resume “a uma recusa dos pressupostos filosóficos ocidentais e a uma concordância, algo contrafeita, com os estritos resultados científicos”. In “O Kenkon Bensetsu e a receção da cosmologia ocidental no Japão do séc. XVII”, Revista Portuguesa de Filosofia, t. 54, fasc. 2 (abril-junho), Humberto Leitão e José Miguel Pinto dos Santos.

[5] George Elison, ob. cit., p. 209 e 448 (notas 67-68).

[6] Shusako Endo, “O Silêncio”, 1990, Edições D. Quixote. Há outra edição de 1995, com tradução de José David Nunes e Teolinda Gersão.

[7] Editions du Seuil, 2003.

[8] Como nota final, é muito importante salientar que este artigo se baseia completamente num outro, publicado pela Editora Húmus, da Universidade do Minho, em 2013, e integrado no livro “Fernão Mendes Pinto e a Projeção de Portugal no Mundo”. O título do artigo em causa é “Os Caminhos Malditos da Projeção de Portugal no Mundo: o Caso de Cristóvão Ferreira” e a autora é Maria Augusta Lima Cruz. A qualidade desse artigo é insuperável, quer pela forma, quer pelo conteúdo. Fica aqui registado o meu pedido de desculpas à autora por ter usado muitas vezes, mesmo sem querer, palavras suas, que, por serem tão apropriadas, não consegui substituir. O mérito que este artigo possa ter é, pois, todo dela.

O Pecado Original

Adão e Eva, do pintor germânico Lucas Cranach, o Velho.

Adão e Eva, do pintor germânico renascentista Lucas Cranach, o Velho.

Há algo que junta o cristianismo ao marxismo de forma inexorável – o moralismo. De facto, ambas as doutrinas tiveram o seu pecado original. O episódio de Adão comendo a maçã é bem conhecido e não necessita de grandes apreciações. Tudo aconteceu no início do Mundo e está retratado no Génesis[1]. Já o pecado da usura foi iniciado por alguns homens anónimos, algures na fase superior da Barbárie, quando produziram mais do que necessitavam para sobreviver e, com esse excedente, proporcionaram o aparecimento da troca, do comércio, do vil dinheiro, do juro, do casamento monogâmico, enfim, destruíram a sociedade mais livre, digna, justa e igualitária que alguma vez existiu – a gens.

É por existirem estes dois pecados que existem duas morais que os condenam. É por existirem estes dois pecados que dois dogmas tão diferentes – que se detestam – nos apresentam, no essencial, uma linha comum, que vai além da condenação: um caminho redentor de expiação dos pecados da humanidade.

E se alguém tem dúvidas de que assim seja, bastará atentar nas romarias que se fazem para conhecer os símbolos vivos de ambas as religiões. A Roma, para ver o Papa, e a Cuba, para ver Fidel[2].

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Nota:

[1] No Génesis está apenas escrito: “Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ‘Não comereis dele’ “. O mito da maçã foi, provavelmente, uma criação dos pintores renascentistas.

[2] É possível encontrar muitas outras comparações e semelhanças entre cristianismo e marxismo. Não é por acaso que muitos afirmam ter sido Cristo o primeiro “marxista” da História; podemos também encontrar profundas semelhanças entre ambos nos católicos seguidores da Teologia da Libertação, sobretudo na América Latina; e não podemos esquecer-nos que ambas as doutrinas – cristianismo e marxismo – consideram, no seu ideário original, o dinheiro, a cobiça e os bens materiais como algo vil e perverso – um dos males maiores da  humanidade.

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Aristides de Sousa Mendes

Aristides de Sousa Mendes com mulher e seus primeiros seis filhos. 1917.

A família Sousa Mendes em 1917.

Nunca é de mais recordar Aristides de Sousa Mendes: hoje, particularmente, quando passam 70 anos sobre o fim do pesadelo de Auschwitz.

Sousa Mendes salvou mais de 30.000 judeus. Oskar Schindler, o alemão celebrizado pelo filme de Spielberg, “A Lista de Schindler”, salvou 1200.

Não nos esqueçamos nunca da frase de Aristides: “salvar uma vida é como salvar o mundo inteiro”.

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Foto: http://www.sousamendes.org/prog/banque-photos.php

A Ilha Dourada

IMG_0643A Ilha Dourada andava nas bocas do mundo. Para alcançá-la era necessário atravessar o longuíssimo e escarpado estreito de Überfluss, quase sempre assolado por ventos terríveis e correntes cruzadas que atiravam as embarcações contra as extremidades afiadas dos grandes rochedos. Para lá dos problemas com o temível estreito, os capitães dos navios, que sempre pareciam extremamente solidários em terra firme, transformavam-se durante as viagens nos piores piratas dos oceanos, e muitos marinheiros eram postos a ferros ou mortos – e outros, ainda, simplesmente atirados borda fora para servirem de alimento aos tubarões. A maioria dos navios afundava e não havia notícia de algum ter alcançado a célebre ilha, desde que o comandante Rizzo Artington dela dera conta.

A notícia que se espalhou foi a de que ali vivia um povo pacífico, próspero e feliz; não havia patrões, nem proprietários, nem capatazes; e também não havia conhecimento do dinheiro. O clima era generoso, a água puríssima, a terra fértil – e todos viviam em comunhão com a natureza-mãe. Além disso, o mais fantástico é que não existia, no seio da sociedade, lugar para o egoísmo, a avareza ou a simples ambição. Tudo o que cada um dos seus habitantes desejava era ser mais um, uma peça única e igual, do todo harmonioso e feliz.

O fascínio que a ilha provocava era enorme – embora muitos duvidassem da sua existência – e não diminuiu após a morte de Artington. Fizeram-se planos para uma viagem vitoriosa sobre ventos e correntes e marés, e a discussão sobre quem comandaria a armada foi longa e truculenta. Finalmente, um capitão se impôs como o mais capaz de conduzir uma armada de 140 navios. Seu nome era Joseph Hoffen – e o entusiasmo que a sua presença provocava era contagiante. A esquadra partiu num dia luminoso, sob um céu todo azul, e os primeiros dias de viagem foram de calmaria e paz. Na frente seguia o magnífico navio-almirante do capitão Hoffen, com 300 ocupantes, entre os quais os seus principais assessores e conselheiros; vinte navios fortemente armados e comandados por leais servidores seguiam logo atrás – entre o navio-almirante e os demais elementos do comboio.

Dezassete dias após a partida, atingiram o estreito de Überfluss. Um vento forte e endiabrado atingiu-os pela proa, como se o Adamastor soprasse do lado de lá da fresta, entre os rochedos gigantes. O ar tornou-se pesado como chumbo; do céu tombavam uma chuva cortante e o som de pedra rachando sob raios de fogo; as nuvens carregadas estavam tão perto que parecia, a todo o instante, irem despenhar-se sobre as embarcações. As águas estavam enlouquecidas, correndo em todos os sentidos, provocando oscilações inesperadas e bruscas nos navios, ameaçando quebrá-los ao meio; vinte foram atirados contra os rochedos sem que nenhum tripulante sobrevivesse; os restantes conseguiram aguentar até o dia seguinte, quando, subitamente, o vento amainou. Continuaram, muito lentamente, durante dez dias. O vento agora quase parara e os navios também; um bando de atobás acompanhava-os, curioso; o mar era um espelho onde se refletia a linha azul do céu, cortando a mancha escura das escarpas rochosas. Assim prosseguiram por 30 dias, avançando 120 milhas.

Entretanto, a água potável começou a escassear e a comida também. Era impossível escalar aquelas escarpas para procurar fosse o que fosse; começaram a ocorrer as primeiras mortes por doenças e má nutrição. Hoffen ordenou que os víveres de vinte embarcações fossem apreendidos, em nome da sobrevivência das restantes – e afundou-as em seguida com todos os que estavam a bordo.

Dias depois, chegaram a um ponto onde a escarpa a bombordo se abria num largo semicírculo e onde o sol entrava como o foco de uma lanterna colossal. As margens ali eram mais acessíveis, mas a vegetação era pobre, escassa e de pequeno porte. Hoffen mandou executar os tripulantes de mais trinta navios, lançou-os ao mar e aproveitou a madeira para construir as primeiras habitações daquele lugar, junto a uma nascente de água que haviam descoberto. Alguns dos seus mais próximos colaboradores começaram a discordar daquelas decisões, sobretudo da de ficar por ali, uma vez que o objetivo era chegar à Ilha Dourada. Hoffen prometeu que não se desviaria jamais desse caminho, mas asseverou que aquela era a única forma de o prosseguirem. E mandou executar os críticos.

Depois deu ordens para que fossem abatidos mais 20 navios. Uma enorme paliçada foi construída em torno das habitações, e torres de vigia erguidas em pontos estratégicos. No interior viviam Hoffen e seus colaboradores mais diretos e do lado de fora, abandonados à sua sorte, os sobreviventes. A maioria destes morreu de fome e alguns foram executados por se revoltarem ou tentarem fugir. Entre eles, já ninguém falava da Ilha Dourada.

Os anos passaram e um dia Joseph Hoffen morreu de uma apoplexia. Os que ainda permaneciam vivos eram tão poucos que cabiam num único navio. Decidiram, então, regressar ao continente.

À chegada, a surpresa foi enorme para muitos, mas não para aqueles que nunca acreditaram que fosse possível chegar à ilha. A discussão reacendeu-se intensamente. Outras frotas – embora bem menores que a de Hoffen, e até navios isolados – partiram. Diz-se que uma delas atingiu uma pequena ilha onde as pessoas tentaram viver de forma semelhante ao que pensavam ser a vida na Ilha Dourada. Mas não foi conseguido um acordo entre todos, e acabaram por ali ficar, isolados do mundo, longe da civilização, da paz e da prosperidade prometidas.

Hoje, já quase não partem navios em busca da ilha paradisíaca: ninguém parece ter argumentos, carisma ou força para angariar uma frota adequada ao empreendimento. Ainda assim, muitos almejam alcançá-la, acreditando na versão de Rizzo Artington.

Para a maioria, porém, a Ilha Dourada é apenas um mito e, na realidade, nunca existiu.

 

 

 

Raquel e o povo

Raquel Varela ionlineAo que parece, Raquel Varela é uma figura em voga neste triste Portugal de hoje (e de quase sempre). Num brilhante artigo publicado anteontem no seu blogue, ela fala-nos do povo português. O bom e o mau. Já ontem, no programa “Barca do Inferno”, que não costumo perder, Varela brindou-nos com mais uma de suas afirmações bombásticas. Disse ela, que o voto para as legislativas não é democrático; o que é democrático é o voto de braço no ar para as Comissões de Trabalhadores.
Nada disto é novo, e não me surpreende que alguma rapaziada na casa dos vinte anos simpatize com Raquel Varela. Mas espanta-me que gente da minha geração, com experiência de vida, possa suportar afirmações deste calibre. Afirmações que incluem adjectivos como cobarde para classificar o povo do 24 de Abril de 1974[1]. Afirmações que revelam um espírito arrogante e profundamente reaccionário e que, sinceramente, são tão ofensivas (e estúpidas), que chega a ser surpreendente que não provoquem maior riso ou indignação. Varela despreza com asco quem não pensa como ela (rima e é verdade). Varela, que não era nascida ainda em 25 de Abril de 74, estudou, leu e pesquisou umas coisas: e convenceu-se de que descobriu a verdade. Isso confere-lhe a legitimidade de produzir os juízos morais, simplistas, tão típicos dos extremistas fanáticos, e que culminam, sempre, numa divisão entre bons e maus. Trata-se, é claro, do mais puro e velho maniqueísmo – tão velho quanto o povo animalesco e deformado que Varela detesta e que, se pudesse, não hesitaria em extirpar.

Como extirparia, sem dúvida, o que é piroso, suburbano, fabricado por alfaiates de segunda e o que é esculpido com falos desmesurados… deformando o povo e os seus (dela, evidentemente) heróis. Não é, de facto, difícil imaginar esta educadora da classe operária como líder de um Movimento da Mão Erguida. (Desde, é claro, que a mão se mantivesse longe dela). É, aliás, estarrecedor o papel de Varela enquanto garante dos íntegros valores socialistas e operários, como se pode observar no artigo “Urge “Guilhotinar” os Traidores”[2], onde apresenta uma listagem dos ditos cujos – traidores (fura-greves). Como futura (e, felizmente, apenas hipotética) líder do proletariado no poder, Varela seria precisa e coerente na sua divisão do mundo entre maus e bons – como demonstrou no programa “Prós & Contras”, em 20 de maio de 2013, investindo contra um jovem de 16 anos, Martim Neves, que acabara de lançar a sua própria marca de roupa, um crime, e mais uma expressão do mundo mau.

É esta ilustre representante da “esquerda caviar”, Varela, a própria, que gosta de jantar em restaurantes caros e mostrar as fotos (que retirou depois da polémica gerada) no Facebook, aonde não vão certamente os seus queridos operários do braço no ar, quem vem dando algum brilho a este Portugal acinzentado; é ela, ainda, com sua verve, quem nos dá a receita adequada para sairmos da crise em que nos encontramos – não negociando com os credores, não pagando o que devemos, e mantendo o total controlo público sobre o setor bancário e financeiro para evitar a fuga de capitais – uma receita mais que infalível para sairmos diretamente de uma situação difícil para a completa miséria, num contraste absoluto e cómico com a caracterização de Varela para “socialismo”: liberdade e abundância; e é ela, finalmente, quem acha que o Estado tem obrigação de cuidar do povo e garantir que este tenha acesso ao Estado Social que sustenta, aliás, em impostos (saúde, educação, segurança social), alimentação e roupas, e todo o kit de sobrevivência acima do mínimo, porque a produtividade hoje permite isso, permite o decente; e cuidar, claro, que as pessoas vivem em lugares dignos e confortáveis. Confuso? Sim e não, apenas um tanto mal escrito, mas ainda assim bastante claro: se o dinheiro não chegar para tudo, a gente pede emprestado de novo e depois não paga. Ou talvez nem precisemos, e consigamos o milagre de sermos auto-sustentáveis, e vivermos todos dignos e confortáveis, mesmo aqueles que não queiram…

Outros (alguns menos fanáticos e lunáticos que Raquel Varela, pelo menos aparentemente) fizeram promessas deste tipo, as quais resultaram, quando colocadas em prática pelo Poder, em segregação, fome e miséria, quando não em perseguição, tortura e morte. Mas é claro que essas tentativas de criar o paraíso falharam porque nenhuma delas era a verdadeira. Porque, como sempre justificam os extremistas, houve falhas humanas ou não estavam criadas as condições objetivas. Em Portugal, particularmente, não tivemos ainda a oportunidade de ver a classe operária no poder. Bem vistas as coisas, isso é perfeitamente compreensível, até porque, ao contrário do que acontece hoje, o povo bom (e mau) doutro tempo não teve a felicidade de ser contemporâneo de Varela.

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[1] http://raquelcardeiravarela.wordpress.com/2015/01/04/o-bom-e-o-mau-povo-portugues/

[2] (http://5dias.net/2012/01/19/urge-guilhotinar-os-traidores/

 

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foto: i online.