Os 11 aspetos distintivos de Portugal

1- A LUZ

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A luz de Lisboa.

A luz de Portugal é famosa. Lisboa, a “Cidade Branca”[1], é elogiada por artistas plásticos, fotógrafos e cineastas – por aqueles para quem a luz é parte importante do seu trabalho – por sua luz particular. Além da luz “diretamente” recebida, há também a luz filtrada e a luz refletida. É na combinação destes tipos de luz que se manifesta a luminosidade particular de Portugal. Neste contexto, têm uma importância acrescida o vento (normalmente, de Norte), o céu limpo (Portugal é um dos países do mundo com mais dias de sol) e as edificações de matizes claros (nomeadamente as construídas em pedra, que é quase sempre o calcário branco) ou pintadas de branco, que ampliam a transparência da luz. Este tipo de construções encontram-se sobretudo nas regiões do Sul de Portugal continental, nomeadamente no Alentejo e no Algarve.

2- A PAISAGEM

Costa da Caparica

Pôr do sol na Caparica, arredores de Lisboa.

Portugal é um país pequeno mas extremamente diversificado. Isto reflete-se em tudo (como veremos, muito, na gastronomia), mas sobretudo, claro, na paisagem. Temos vários tipos de clima, alguns dos quais separados por poucos quilómetros de distância. Por exemplo, o Norte de Portugal vai desde o verde viçoso do Minho (onde podemos encontrar o exuberante Gerês) ao árido (mas belo) Trás-os-Montes. As praias são magníficas: as do Norte com água bem fria, mas as do Sul (nomeadamente no Algarve) com águas mornas (no Verão) e calmas, excelentes para banhos. As principais cidades portuguesas situam-se junto de belos rios – O Mondego, o Douro e o Tejo. Seguir o seu percurso, em Portugal, equivale a conhecer por dentro algumas das mais belas paisagens naturais do mundo. Os arquipélagos dos Açores e da Madeira são igualmente famosos pelas suas belezas paisagísticas.

3- O MAR

Barril

Praia do Barril, Tavira, Algarve.

Não existe outro país continental onde as pessoas tenham uma relação tão estreita com o mar. Esta relação está já inscrita no código genético dos portugueses. Isso é visível na distribuição da população pelo território. Esta apetência para o mar – manifestada pelas mais diversas atividades profissionais e culturais – deriva da presença em Portugal dos Fenícios, povo que, tal como nós, embora muito antes, se dedicou, durante largo período, ao comércio marítimo. Os portugueses quase sempre aceitaram os desafios do mar. Nele, muitos ganharam a vida e muitos outros a perderam. Dificilmente um português conseguirá viver longe da água salgada. Esta relação completa-se com o fiel cão de água português, o canino mais adaptável, em todo o mundo, ao ambiente marítimo[2]. Como se sabe, esta apetência marítima conduziu os portugueses aos quatro cantos do mundo. Portugal foi o primeiro império marítimo mundial[3]. Data desses tempos o início do processo conhecido por “globalização”.

4- A CORTIÇA

cortiça

Colares e brincos em cortiça.

Trata-se de uma especificidade portuguesa. Portugal é o maior produtor mundial de cortiça. Este produto tem características muito próprias – sobretudo a sua combinação de impermeabilidade e leveza – que o tornam excelente em várias utilizações, sobretudo, claro, como rolha em garrafas de vinho[4]. Porém, nem toda a cortiça dá para fazer rolhas. A primeira extração de cortiça só se realiza quando o sobreiro tem 25 anos. Mas a cortiça adequada para produzir rolhas só é extraída quando o sobreiro tem 43 anos (terceira extração). O sobreiro (Quercus Suber L.), única árvore em que a casca se regenera, dura em média 200 anos, isto é, suporta cerca de 17 extrações. A cortiça tem mais aplicações para além de rolha. Os produtos dela derivados são utilizados em áreas tão diversas quanto a moda, a construção, o design, a saúde, a produção de energia ou a indústria aeroespacial.

5- A GASTRONOMIA

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O peixe grelhado, sobretudo a sardinha, é uma iguaria muito apreciada pelos portugueses.

A gastronomia em Portugal é excelente. As duas vertentes de uma gastronomia de elevada qualidade são as boas matérias-primas e os bons cozinheiros (que fazem as boas receitas). O peixe é a melhor matéria-prima de Portugal, em termos gastronómicos. Aqui existe o melhor peixe do mundo. A sardinha é rainha e o bacalhau é rei. Ninguém sabe tratá-los melhor que os portugueses. Depois, fabricamos o melhor pão, aliás, os melhores pães (e broas), pois a variedade é enorme. Os melhores vinhos (brancos, tintos, espumantes, rosés e generosos) são produzidos em Portugal. O vinho do Porto é famoso no mundo inteiro. Os nossos queijos são variados e de qualidade insuperável. O queijo “Serra da Estrela” já foi várias vezes considerado o melhor do mundo. O nosso azeite é de altíssima qualidade e ganha regularmente, tal como o vinho e o queijo, prémios internacionais. Finalmente, a doçaria. É de chorar. Os nossos melhores doces vêm de uma tradição “conventual”. Enfim, perante coisas ancestrais, é quase pecado falar em “nouvelle cuisine” (que também aqui há). A nossa cozinha não é uma moda, não é uma nova forma de arte. A nossa cozinha é cultura (viva), é sabedoria – e é amor[5].

6- O MANUELINO

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A Torre de Belém, desenhada por Francisco de Arruda, é um magnífico exemplar do estilo manuelino.

Mais fácil e melhor que descrevê-lo é observá-lo nas mais variadas obras de arte, quer em edificações, quer em ourivesaria. Tradicionalmente, considera-se o manuelino como uma evolução do estágio ulterior do estilo gótico, e por isso é também denominado como gótico português tardio ou flamejante. O estilo manuelino desenvolveu-se sobretudo no reinado de D. Manuel, embora já existisse no do seu antecessor, D. João II, e desenvolveu-se também a partir da arte mudéjar, tendo ainda, mais tarde, incorporado elementos do Renascimento italiano. Os motivos principais do manuelino (designação cunhada em 1842 por Francisco Adolfo Varnhagen) são a esfera armilar, a cruz da Ordem de Cristo e elementos naturalistas ou fantásticos. As três obras mais emblemáticas do manuelino são provavelmente o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e a janela do Capítulo, no Convento de Tomar, todas construções do século XVI.

7- A CALÇADA PORTUGUESA

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Calçada portuguesa no Largo do Chiado, em Lisboa.

Foi considerada recentemente por um colunista do Financial Times uma das principais atrações entre aquelas que figuram nas mais belas cidades do mundo. Os efeitos visuais são sempre interessantes e, em imagens vistas de cima, muitas vezes, de rara beleza. Exportámos esta arte para outros países, desde a China (Macau) ao Brasil, como se pode verificar, por exemplo, no Rio de Janeiro. Mas é em Portugal Continental e nas Ilhas que se encontram os exemplos mais cativantes. No Continente, a pedra usada é sempre o calcário, sobretudo preto e branco (mas também castanho, vermelho, azul, cinzento e amarelo) mais fácil de trabalhar que o (mais duro) basalto negro, usado nas Ilhas, sendo ali os desenhos formados em calcário branco. Os trabalhadores especializados na colocação deste tipo de calçada são denominados mestres calceteiros. Esta arte iniciou-se (nos moldes em que hoje a conhecemos) em meados do século XIX e, desde 1986, existe a Escola de Calceteiros da Câmara Municipal, situada na Quinta do Conde dos Arcos, em Lisboa.

8- A AZULEJARIA

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Casa do Alentejo, em Lisboa.

O que dizer do azulejo português? Essa expressão artística manifesta-se em todo o país e cobre todas as camadas da população, desde os artesãos dos lugares mais recônditos, aos mais consagrados artistas. Com cerca de 500 anos de produção, a sua origem é árabe. No início, os azulejos predominavam em igrejas e palácios, mas com o tempo popularizaram-se, sobretudo a partir do século XIX, e chegaram às fachadas e aos interiores dos edifícios residenciais. Embora a azulejaria se tenha desenvolvido noutros países (como a Espanha, a Itália e os Países Baixos), em Portugal a sua originalidade deriva sobretudo da relação estabelecida com outras artes, nomeadamente a pintura, a gravura e a arquitetura, e do diálogo que mantém com o espaço envolvente, iluminando-o e transformando-o globalmente. No Museu Nacional do Azulejo, situado no Convento da Madre de Deus, em Lisboa, é possível observar magníficos exemplares. Quem goste desta expressão artística deve também fazer uma visita à Quinta da Bacalhôa, em Azeitão, na Península de Setúbal.

9- O FADO

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Fado na Mesa de Frades.

Apesar do recente reconhecimento como Património Mundial pela UNESCO, o fado ainda é visto por muitos como uma expressão artística menor. Mas há fados e fados. E há o Fado. Este foi imortalizado por Amália Rodrigues e desde aí não foi mais possível ignorá-lo. Amália, sobretudo no período em que cantou poemas de grandes poetas portugueses dentro das composições de Alain Oulman, guindou o fado a uma das expressões artísticas mais genuínas, belas e nobres. As suas atuações eram absolutamente arrebatadoras e Amália guiou-as apenas com a sua espantosa intuição. Uma das características únicas do fado é a utilização da guitarra portuguesa (há a de Lisboa e a de Coimbra, com afinações diferentes), com sua sonoridade única e inequívoca. Neste instrumento se destacaria um interprete e criador extraordinário chamado Carlos Paredes. E é ainda uma voz feminina que se destaca nos dias de hoje no fado: Mariza é a digna sucessora de Amália.

10- A POESIA

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Estátua de Fernando Pessoa, junto à “Brasileira”, em Lisboa.

No campo da escrita, Portugal não é apenas um país de poetas. Desde Fernão Mendes Pinto que existem ilustres contadores de histórias, narradores exímios, domadores lestos que cavalgam as palavras. Eça de Queirós é um deles. Mas foram dois poetas que marcaram para sempre as letras portuguesas: Luís de Camões e Fernando Pessoa. Radicalmente diferentes, na vida e na obra, igualam-se e complementam-se no génio. Ambas as obras, separadas por um quarto de milénio, estão no topo do que alguma vez foi produzido, no género, por homens e mulheres. Ambos viveram durante algum tempo em Lisboa (e passaram por Alfama), e ambos são símbolos importantíssimos da cidade, e de toda a nação. Mas outros nomes de poetas poderíamos acrescentar, como Camilo Pessanha, Cesário Verde, Florbela Espanca, Sophia de Melo Breyner, Ruy Belo, Herberto Helder, entre muitos, muitos outros.

11- OS PORTUGUESES

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Veraneantes em Cabanas, Algarve.

As generalizações são sempre abusivas, ainda mais quando se trata de povos. Existem vários tipos de portugueses, como existem vários tipos de solos em Portugal: o transmontano é duro e rude como o granito; o alentejano maleável e macio como o calcário ou o xisto. Mas talvez seja possível encontrar o português típico. Isso é natural num país com 850 anos. O português tem, como já vimos, uma costela fenícia, à qual devemos acrescentar as árabe, judaica e berbere. Ou seja, o arcaboiço é, portanto, semita[6]. Por outro lado, uma característica básica do português é a miscigenação. Basta ver os negros no Brasil e os negros dos Estados Unidos para perceber a diferença. A expressão “Deus criou o branco e o preto, e o português criou o mulato” tem pleno cabimento. Talvez por isso o português se adapte rapidamente à vida longe de casa. E, nesta, ninguém sabe receber tão bem como ele, o típico hospitaleiro. A crescente onda turística em Portugal tem muito a ver com a genuína hospitalidade portuguesa.

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Notas:

[1] A capital portuguesa ficou conhecida como “Cidade Branca”, sobretudo, após o filme, com título homónimo, do realizador suiço Alain Tanner, rodado em Lisboa e estreado em 1983.

[2] Existe também um cão de água espanhol, mais pequeno que o português e, ao que parece, menos sociável com as crianças. Sobre o cão de água português ver artigo deste blogue: http://ilovealfama.com/tag/cao-dagua-portugues/.

[3] Ver artigo deste blogue: http://ilovealfama.com/2014/08/22/o-primeiro-imperio-maritimo-mundial/.

[4] 60% das rolhas de cortiça de todo o mundo são produzidas em Portugal. Seguem-se Espanha e Itália. Há ainda pequenas parcelas que são produzidas em Marrocos, Argélia e Tunísia. Por outro lado, nem todas as rolhas de cortiça têm suficiente qualidade. Isto é muito importante, dado que a oferta de rolhas de qualidade não é suficiente para a procura. Os preços, naturalmente, sobem (uma boa rolha de cortiça pode custar mais de um euro), até porque todo o processo de extração só pode ser feito por processos manuais.

Para se ter ideia da importância das rolhas de vinho em cortiça, recordemos um curiosíssimo episódio ocorrido em 2010. Nesse ano foram descobertas no Mar Báltico, em área finlandesa, mais de 160 garrafas de champanhe provenientes de um naufrágio. O vinho tinha cerca de 200 anos e estava em perfeito estado de conservação, pois a enorme pressão no fundo do mar fez com que as rolhas se mantivessem estanques. Foi decidido provar o vinho que se verificou estar em perfeitas condições (a quase total escuridão e a temperatura média de 4 graus também contribuíram para isso). E, sem surpresa, foi solicitado o apoio técnico à melhor corticeira do mundo – a portuguesa Amorim – que estudou o assunto e substituiu algumas das rolhas originais por rolhas naturais de alta qualidade.

[5] Para lá da excelência da nossa gastronomia, e a condizer com ela, há que referir também o gosto dos portugueses pela comida. Somos dos poucos povos que fazem questão de almoçar e jantar com refeições completas. E somos dos que mais gostam de ir ao restaurante. De acordo com Barry Hatton, um jornalista britânico radicado em Portugal (in “Os Portugueses”, Editora Clube do Autor, 9ª edição, nov. de 2013, p. 261), “um estudo de 2008 revelou que as famílias portuguesas gastam 9,5% do seu orçamento familiar a comer e a beber fora – mais do dobro da média da UE. Essa estatística ajuda a explicar a razão pela qual Portugal tem três vezes mais restaurantes per capita do que o resto da UE (um por 131 pessoas; a média da UE é de um por 374)”. Podemos – e devemos – ainda acrescentar à lista de produtos fabulosos “made in Portugal”, algo tão básico e importante como o sal. O sal português é de altíssima qualidade, sobretudo o da região do Algarve, nomeadamente de Tavira. A flor de sal é um produto que resulta das pequenas placas que flutuam na água do mar apresada nos talhos das salinas. Logo após a recolha é depositada em caixas perfuradas para escorrer e secar ao sol, até ser armazenada. É muito apreciada pelos melhores cozinheiros mundiais. Tanto o sal tradicional quanto a flor de sal de Tavira são recolhidos entre julho e setembro, e a Comissão Europeia atribuiu-lhes, em novembro de 2013, a Denominação de Origem Protegida – DOC. 

[6] Aqui discordamos abertamente de Teixeira de Pascoaes. Escreve ele no seu ensaio “Arte de “Ser Português” (Assírio & Alvim, 1ª edição, 1991, p. 58): “Portugal resiste, há oito séculos, ao poder absorvente de Castela. Demonstra este facto que, de todas as velhas Nacionalidades peninsulares, foi Portugal a dotada com mais força de carácter ou de raça. E este seu carácter, trabalhado depois pela Paisagem, resultou ou nasceu da mais perfeita e harmoniosa fusão que, neste canto da Ibéria, se fez do sangue ariano e semita. Estes dois sangues, equivalendo-se em energia transmissora de heranças, deram à Raça lusitana as suas próprias qualidades superiores, que, em vez de se contradizerem – pelo contrário – se combinaram amorosamente, unificando-se na bela criação da alma pátria”.

Ora bem, este é um retrato bastante romântico do português. Basta olhar à nossa volta para perceber isso – basta olhar para nós próprios. Embora haja, evidentemente, algum sangue ariano entre nós, somos, sem dúvida, semitas e, mais, (estudos genéticos comprovam-no), goste-se ou não, somos em larga medida africanos, com sangue ancestralmente negro.

Voltaire e os Egípcios

VoltaireVoltaire, um homem tolerante, faz um retrato surpreendentemente intolerante (e muito curioso) sobre os egípcios no seu livro “Tratado sobre a Tolerância por Ocasião da Morte de Jean Calas”, de 1763. Numa extensa nota de rodapé (n. 52), Voltaire, na página 54 (Relógio D’Água, 2015), escreve o seguinte.

Desde que a história sucedeu à lenda, convenhamos que os egípcios só podem ser vistos como um povo tão cobarde como supersticioso. Com uma única batalha, Cambises conquista o Egito; Alexandre manda nele, sem ter travado um só combate, sem que uma única cidade tenha sequer ousado esperar por um cerco; os Ptolomeus conquistam-no sem qualquer dificuldade; César e Augusto subjugam-no com a mesma facilidade; numa única campanha, Omar conquista-o integralmente; os mamelucos, povo da Cólquida e dos arredores do monte Cáucaso, tomam-no depois de Omar; são eles, e não os egípcios, que desbarataram o exército de São Luís e fazem este rei prisioneiro. Por fim, os mamelucos, tendo-se tornado egípcios, ou seja, moles, covardes, desleixados, frívolos, como os naturais desse clima, caem em três meses sob o jugo de Selim I, que manda enforcar o seu sultão, e anexa essa província ao Império Turco, até que outros bárbaros o voltem a conquistar um desses dias.

Heródoto conta que, nos tempos fabulosos, um rei egípcio, chamado Sesóstris, saiu do seu país com o projeto expresso de conquistar o universo: é evidente que um projeto desses só é digno de um Picrochole ou de um Dom Quixote; e sem contar que o nome de Sesóstris não é absolutamente nada egípcio, podemos colocar esse tipo de acontecimentos, assim como todos os factos anteriores, ao nível das Mil e uma Noites. Não há nada de mais comum, entre todos os povos conquistados, que o inventar fábulas sobre a sua grandeza passada, como acontece, em certos países, em que algumas famílias miseráveis fazem ascender as suas origens a antigos soberanos. Os padres do Egito contaram a Heródoto que esse rei, que ele diz chamar-se Sesóstris, fora subjugar a Cólquida; era como se dissesse que um rei de França partira de Touraine para ir subjugar a Noruega.

Não é por se contarem todas essas histórias, em mil e mil volumes, que elas se tornam mais credíveis; é bem mais natural que tenham sido os habitantes robustos e ferozes do Cáucaso, os Colquídeos, e outros citas, que vieram tantas vezes devastar a Ásia, a descer até o Egito; e se os sacerdotes de Colcos levaram para as suas regiões a moda da circuncisão, isso não prova que tenham sido subjugados pelos egípcios. Diodoro de Sicília conta que todos os reis vencidos por Sesóstris vinham todos os anos do extremo dos seus reinos pagar-lhe tributo, e que Sesóstris se servia deles como cavalos de carroça, que ele os fazia atrelar ao seu carro, para ir ao templo. Essas histórias de Gargântua são todos os dias fielmente copiadas. Seguramente que esses reis eram muito bons para virem de tão longe fazer assim de cavalos.

Quanto às pirâmides e outras antiguidades, elas só demonstram o orgulho e o mau gosto dos príncipes do Egito, assim como a escravidão de um povo idiota, que usava os braços que tinha, e que eram o seu único bem, para satisfazer a grosseira ostentação dos seus donos. O governo desse povo, nessa mesma época tão gabada, parece absurdo e tirânico; diz-se que todas as terras pertenciam aos seus monarcas. Eram mesmo esses escravos que seriam capazes de conquistar o mundo!

A profunda ciência atribuída aos sacerdotes egípcios é ainda um desses enormes ridículos da História Antiga, ou seja, da fábula. Gente que pretendia que, no decurso de onze mil anos, o Sol se tinha levantado duas vezes, ao poente, e deitado duas vezes a nascente, recomeçando o seu curso, estava, sem dúvida, abaixo do autor do Almanaque de Liège. A religião desses padres que governavam o Estado não era comparável com a dos povos mais selvagens da América: sabemos que adoravam crocodilos, macacos, gatos, cebolas; hoje, em toda a terra, só o culto do grande lama se lhe pode talvez comparar em absurdo.

As suas artes não valiam mais do que a religião que tinham; não há uma única estátua egípcia da Antiguidade que seja sequer suportável, e tudo o que eles têm de bom foi feito em Alexandria, no tempo dos Ptolomeus e dos Césares, por artistas da Grécia: precisaram de um grego para aprenderem a geometria.

O ilustre Bossuet extasia-se com o mérito egípcio, no seu Discours sur l’ Histoire Universelle dirigido ao filho de Luís XIV. O discurso pode encantar um jovem príncipe, mas há poucos eruditos que se dêem por satisfeitos: é uma eloquentíssima declamação, mas um historiador deve ser mais filósofo que orador. Para terminar, não deve ver-se nestas reflexões mais do que uma conjetura: que outro nome dar a tudo o que se diz sobre a Antiguidade?

Voltaire, um parisiense cujo nome verdadeiro era François-Marie Arouet, esteve preso várias vezes por ter criticado o Poder. Espírito livre, refugiou-se em Inglaterra onde escreveu Cartas sobre os ingleses, comparando o sistema inglês, liberal, ao francês, clerical e absolutista. Avesso a todo o tipo de fanatismo, deixou-nos uma vastíssima obra. Sobre ele escreveu Jorge Luis Borges: “Descobriu e repudiou a obra de Shakespeare. Sentiu a vastidão dos impérios do Oriente e a vastidão do espaço astronómico. Colaborou na enciclopédia de Diderot. Deixou escrito que um testemunho da sagacidade italiana é ter feito com que o mais pequeno dos territórios da Europa, o Vaticano, fosse um dos mais poderosos. Entre tantas coisas, legou-nos uma história de Carlos XII, que tem muito de epopeia. A felicidade de escrever nunca o abandonou; a sua gratíssima obra compreende noventa e sete volumes. Quevedo troçou da inofensiva mitologia dos gregos; Voltaire, da cristã, da do seu tempo. Observou que abundam as igrejas dedicadas a virgens e a santos e ergueu uma capela a Deus, talvez a única na terra. No frontispício lê-se, de potência a potência, Deo erexit Voltaire. Está a umas léguas de Genebra, em Ferney. Sem ter intenção, preparou a Revolução Francesa, a qual teria abominado.”

Apesar de tudo, porém, há questões que permanecem sem resposta. O que teria levado Voltaire a dizer tão mal do povo egípcio? E, mais do que isso, teria ele razão sobre o que escreveu, e aqui ficou transcrito?

As Cidades Bálticas

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Através desta mapa é possível deduzir a extrema importância do Báltico – e da sua ligação ao Mar do Norte, ao Atlântico e ao mundo – para todos os países da região.

Ao que parece, antes de ser mar, o Báltico foi um enorme lago. O derretimento das grandes caleiras de gelo que o circundavam fez subir o nível das águas e abriu, durante a última glaciação, canais navegáveis para outros mares. A nossa viagem pelo Báltico foi feita de navio. Procurámos o melhor cruzeiro e temos a presunção de tê-lo encontrado, através do Costa Pacífica [1]. Foram doze dias intensos, em que visitámos nove cidades (e oito países)[2] desse mar quase mítico, onde se desenrolaram tantos capítulos cruciais da história europeia e, logo, da história mundial.

As disputas no Báltico são muito antigas[3], e alguns dos seus povos confrontaram-se com invasões sucessivas de vizinhos mais poderosos, sobretudo dinamarqueses, suecos e, nos últimos séculos, russos e alemães. Os russos foram os últimos a abandonar alguns países bálticos que integravam a então União Soviética, como são os casos de Estónia, Letónia, Polónia e Lituânia. Dos que foram atacados pelos soviéticos, o único país a resistir com sucesso foi a Finlândia.

Como sempre acontece em ocupações mais ou menos prolongadas, largas minorias da potência ocupante permanecem nos Estados que reconquistam a independência. É o que acontece, por exemplo, na atual Ucrânia[4], com as graves consequências políticas, que todos vamos conhecendo através da comunicação social. A Rússia procura, nitidamente, alargar a sua zona de influência, através das minorias (e partidos representativos das mesmas), espalhadas por esses países.

Estamos, portanto, a falar de uma zona instável, de países que reconquistaram recentemente a independência, de uma zona tampão, estratégica, alvo de disputas políticas entre a Rússia e a Europa Ocidental. Mas estamos também a falar de povos muito antigos, povos com uma vontade inquebrantável de autonomia. Todos eles – excetuando obviamente a própria Rússia – parece terem achado que a melhor forma de garantir essa autonomia era no seio da União Europeia. São, portanto, nossos parceiros de jornada e, só por isso, já estaria justificada esta viagem. Na realidade, porém, são muito mais. São países fascinantes com histórias e culturas riquíssimas – a maioria das cidades que visitámos estão classificadas como Património Mundial – que justificam amplamente a decisão de visitá-los.

KIEL

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A nossa equipa de reportagem no primeiro jantar no navio, à saída de Kiel.

Foi em Kiel que se iniciou a nossa viagem pelo Báltico. Esta cidade é a capital da Schleswig-Holstein Busdesland, fundada, em 1223, pelo conde Adolfo IV de Schauenburg, e está situada no extremo norte da Alemanha, junto à fronteira com a Dinamarca. Para aqui chegarmos tivemos de apanhar o avião (de Lisboa) para Hamburgo, onde dormimos uma noite, e, na manhã seguinte, tomar o comboio para Kiel. Quer numa, quer noutra cidade encontrámos alemães simpáticos e prestáveis, em contraste notório com o tempo sombrio e chuvoso, embora estejamos em pleno Verão. No regresso do cruzeiro voltámos a passar por Kiel, onde ficámos um dia e uma noite. Na manhã do dia seguinte apanhámos o comboio até o aeroporto de Hamburgo, tendo sido necessário mudar uma vez de composição. O transporte ferroviário é barato por estas bandas, com bilhetes coletivos, o que facilita muito a vida quando se viaja acompanhado, como foi o nosso caso. Às oito horas da tarde, embora seja pleno dia, as pessoas recolhem-se em casa e as ruas ficam praticamente desertas. O clima é mesmo agreste por aqui, como, de uma forma geral, em toda a Alemanha.

ESTOCOLMO

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A célebre Praça Stortorget, em Estocolmo.

A parte mais interessante de Estocolmo é o burgo antigo (Gamla Stan), erguido sobre uma das catorze ilhas em que a cidade repousa. Ali pudemos observar belos edifícios, ruas e praças – como aquela onde se situa a Academia Sueca e o Museu do Nobel. Estocolmo é bastante antiga e a sua localização estratégica fez com que fosse capital da Suécia desde o século XIII. Atualmente, é uma das cidades mais limpas, organizadas e seguras do mundo. Nos arrabaldes de Gamla Stan, numa ilha vizinha, visitámos o edifício do City Hall[5], construído em 1923, uma das edificações mais visitadas da cidade. Um senhor muito simpático perguntou-nos se sabíamos quantos tijolos tinham sido usados na construção daquele edifício. “Oito milhões”, disse-nos, sorrindo, acrescentando que sempre faz essa pergunta aos netos quando por ali passam…

Entrar e sair de Estocolmo por navio é um espetáculo à parte: são quatro horas a navegar entre milhares e milhares de pequenas ilhas, muitas delas habitadas, arborizadas, com suas casas e seus ancoradouros, junto aos quais flutuam embarcações de todos os tipos – veleiros, barcos a motor, motas de água e, até, pequenos barcos a remos. O nosso grande navio serpenteou por entre essas ilhas (muitas delas apenas ilhéus e ilhotas), por canais que só os pilotos locais podem conhecer. Ao percorrê-los, ficamos com uma noção mais perfeita da localização estratégica desta magnífica cidade.

Como se sabe, a Suécia é um dos países mais desenvolvidos do mundo, e é o terceiro maior país da União Europeia. No entanto, a densidade populacional é muito pequena (21 habitantes por quilómetro quadrado) e a Suécia tem menos habitantes que Portugal, cerca de 9,3 milhões.

HELSÍNQUIA

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Monumento a Sibelius, Helsinquia.

Se Estocolmo surpreendeu, Helsínquia não ficou atrás. Historicamente, a vida dos finlandeses não tem sido fácil, entalados entre as potências Suécia e Rússia, ambas ocupantes da Finlândia por períodos bastante longos: foi parte da Suécia até 1809 e, posteriormente, Grão-Ducado autónomo pertencente ao Império russo. Muitas das construções de Helsínquia são ainda desse tempo, algumas delas bastante interessantes. Mas os finlandeses nunca se conformaram com as ocupações e sempre deram mostras de serem um povo valoroso e empreendedor. Em 1917 foi declarada a independência. Seguiu-se uma guerra civil e guerras contra russos e alemães. Em 1939 resistiram a Estaline, com um terço das tropas do adversário e com um arsenal bélico igualmente muito inferior. Não é de admirar, portanto, que aqui existam vários militares heróis nacionais, com estátuas espalhadas pela cidade. Os finlandeses são, além de determinados, naturalmente tímidos, mas muito afáveis e educados. O seu sistema educativo é de primeiríssimo nível, o melhor que se conhece no mundo. Tudo isto se reflete nas ruas. Helsínquia é uma cidade calma, musical, ordeira, alegre e civilizada; e, talvez a brindar-nos pela nossa visita, inesperadamente soalheira. Esta belíssima cidade sempre foi relativamente pequena, contando hoje em dia com cerca de 600.000 habitantes. Toda a Finlândia terá pouco mais de cinco milhões, cerca de metade de Portugal. A língua finlandesa é parecida com o estoniano e, curiosamente, não tem origem indo-europeia[6].

SÃO PETERSBURGO

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Foi sobre o delta do Neiva que construíram São Petersburgo.

São Petersburgo tem algumas semelhanças com as cidades que visitámos antes – Estocolmo e Helsínquia – sobretudo no que se refere à geografia[7] e ao clima, mas também quanto às numerosas catedrais e igrejas ortodoxas. No resto, é bastante diferente. São Petersburgo tem as características de uma cidade imperial, com seus palácios, guarnições militares e monumentos eminentes; e é igualmente uma cidade de grande atividade cultural, com um número considerável de museus, teatros, bibliotecas, salas de espetáculos e livrarias.

É também diferente por ser uma cidade relativamente nova. Fundada há 312 anos por Pedro, o Grande, primeiro imperador da dinastia Romanov, foi capital da Rússia por cerca de 200 anos, e mudou de nome várias vezes (foi Petrogrado e Leninegrado) até voltar a ser São Petersburgo. A cidade repousa sobre mais de quarenta ilhas, no delta do rio Neiva, e conta, atualmente, com mais de cinco milhões de habitantes. A estes acrescem os inúmeros turistas que visitam, sobretudo no Verão, a cidade mais ocidentalizada da Rússia[8], apesar da política reacionária de Putin e seus comparsas, apoiados pela maioria do povo russo. Neste aspeto a Rússia difere muito quer da Suécia, quer da Finlândia, países com os quais manteve conflitos ao longo de vários anos. Isto mesmo podemos confirmar através de um guia local que acompanhava um grupo de italianos. Ouvimo-lo dizer, à porta da catedral de S. Pedro e S. Paulo, que os russos apoiam Putin; que detestam Gorbatchov; que a maioria deles acha positiva e patriótica aquilo que foi a política de Estaline.

Como ficou dito, São Petersburgo é uma cidade monumental. É fácil descobrir pela internet quais os seus lugares de interesse, que são mesmo muitos. Evidentemente, no pouco tempo que estivemos na cidade, visitámos apenas uma pequena parte deles. São Petersburgo é daquelas cidades que merecem uma visita demorada, pelo menos de uma semana.

TALIN

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Placa evocativa do terror comunista, no centro histórico de Talin.

Talin é uma cidade completamente diferente das três anteriores. Mais pequena; mais modesta; mais sombria (pelo menos no dia em que a conhecemos) – o que não quer dizer, forçosamente, menos bela. No seu casco velho, dividido em duas zonas, encontramos os mais interessantes edifícios, alguns dos quais medievais, que nos contam muito da sua história. Uma história de repressão imposta, desde cedo, por povos mais poderosos, como os dinamarqueses, os alemães, os suecos e os russos. O próprio nome da cidade quer dizer “Fortaleza dos Dinamarqueses”, “Taani Linnus”, que deu origem a Tallin.

Fustigados pelos soviéticos durante grande parte do século XX (com breve intervalo durante a II Guerra Mundial, quando os alemães tomaram a Estónia), este povo sempre teve um fortíssimo desejo de independência. Esta seria alcançada apenas no fim dos anos oitenta e, enquanto não conseguiam a liberdade, os estonianos reuniam-se para cantar em grandes manifestações que, embora culturais, eram também, e sobretudo, de protesto. Em celebração desses tempos, ainda hoje, de cinco em cinco anos, se realiza em Talin o Festival da Canção, que reúne, durante dois dias, todo o povo da Estónia[9]. A tradição destes festivais remonta a 1869. De Talin trouxemos um CD (Tabula Rasa) de um dos seus músicos mais emblemáticos, Arvo Pärt.

RIGA

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A Praça da Câmara Municipal, em Riga, onde se situa o célebre edifício dos Cabeças Negras.

Riga é uma cidade belíssima. Esta afirmação é reforçada pelo espanto que nos provoca o conhecimento dos terríveis bombardeamentos a que foi submetida durante a II Guerra Mundial, bem como a determinação de seus habitantes em recuperá-la, após o longo período de ocupação – e abandono – soviético, que apenas terminou em 1991. Riga deve o seu nome ao pequeno rio sobre o qual, depois de aterrado, a construíram. Os primeiros a desenvolverem a cidade foram os alemães, que aqui chegaram em 1202 e permaneceram, com suas língua e cultura, por cerca de 700 anos, embora escavações realizadas em 1938 tenham provado que tribos locais se haviam estabelecido em Riga muito antes da chegada dos alemães.

Riga é, pois, um burgo muito antigo. Isso se comprova por toda a parte central da cidade (Vecrïga), através de edifícios medievais, quase saídos de contos de fadas. Destes, destaca-se, pelas suas incríveis beleza e singularidade, a “Casa dos Cabeças Negras”. Inicialmente construído em 1334, este magnífico edifício foi alvo de reformas ao longo dos anos e, em 1721, tornou-se propriedade dos Blackheads. Destruído por um incêndio logo nos primeiros dias da II Guerra Mundial, tal como Fénix, renasceu, literalmente, das cinzas.

Mas Riga não é inesquecível apenas pelos seus belos edifícios medievais. Os amplos espaços verdes, os cafés, com belíssimas esplanadas, e as praças, onde convivem harmoniosamente, monumentos, esculturas, plantas e flores, artesãos e meros transeuntes – tudo lhe confere um colorido inigualável. Nota-se também um enorme dinamismo em Riga, sobretudo entre a população mais jovem (quase todos falam bem inglês), que augura um futuro risonho a esta notável cidade báltica.

KLAIPEDA

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Vista sobre Klaipeda e o rio que cruza a cidade.

Apesar de ser também muito antiga – fundada em 1252 – Klaipeda não tem o fulgor das restantes cidades que visitámos, sobretudo do ponto de vista histórico-cultural (e, logicamente, turístico). Não deixa, porém, de ser uma cidade importante (a terceira maior da Lituânia), sobretudo porque é a única que tem um porto marítimo, de vital importância económica. Trata-se, aliás, de um porto extenso e completo, com terminais para todo o tipo de cargas e também para passageiros. Se do ponto de vista arquitetónico Klaipeda não é uma relíquia, ela é harmoniosa e singela do ponto de vista natural. O rio Dane, que a corta ao meio, confere-lhe alegria, frescura e paz. Tal como a Estónia e a Letónia – suas parceiras na União Europeia e no Euro – a Lituânia tem tudo para sonhar com um futuro melhor.

GDANSK

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Edifícios de uma das ruas centrais de Gdansk.

É um pouco estranho que se fale tão pouco de Gdansk – ou, então, temos andado demasiado distraídos. Isto é o mais provável, dado que a cidade estava repleta de turistas quando a visitámos: Gdansk é um grande museu ao ar livre. Esta realidade impõe-se com tanta evidência que chegamos a esquecer-nos do seu relevante papel económico, sobretudo na vertente portuária, vital para o comércio com o exterior, o qual já era importante no século XIII.

Gdansk é uma cidade polaca muito antiga. O período entre 1580 e 1650 é considerado “época dourada”, quando a faceta artístico-cultural da cidade se desenvolveu enormemente. Uma das causas deste desenvolvimento foi a Reforma. Ao Gótico seguiu-se o Renascimento e a este, sob influência holandesa, o Maneirismo. Naqueles tempos prevalecia a tolerância religiosa e esta proporcionou o ambiente propício para que ali se estabelecessem milhares de artesãos e artistas, oriundos de todas as partes da Europa. Assim surgiram obras de arte que tornaram esta cidade uma das mais belas do mundo.

A invasão prussiana, a partir da segunda metade do século XVIII, vem estancar este processo criativo e, mais tarde, o próprio desenvolvimento económico de Gdansk. Em 1793, a cidade passou a fazer parte da Prússia e foi submetida a um longo processo de germanização, interrompido apenas no curto período de soberania francesa, de 1807 a 1814. Após a Grande Guerra, e com a influência inglesa, foi declarada, em 1920, a cidade livre de Gdansk, sob protetorado da Liga das Nações. No final da II Guerra Mundial, em 1945, as tropas soviéticas destruíram quase 90% do centro histórico da cidade. Depois da guerra, os polacos reconstruíram-no e, nas décadas de setenta e oitenta, foram em Gdansk que se deram as revoltas e greves operárias contra o regime pró-soviético, sobretudo através do sindicato independente Solidariedade e do seu carismático dirigente, Prémio Nobel da Paz em 1983 e, mais tarde, presidente da Polónia (1990-95), Lech Walesa.

GDYNIA

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Perspetiva dos elevadores centrais do Costa Pacifica, na última noite a bordo, após saída de Gdynia.

Gdynia é uma cidade muito mais recente que Gdansk, situada a poucos quilómetros desta[10], igualmente nas margens do Báltico e igualmente portuária, ainda na baía que deve o nome à sua magnífica vizinha. Enquanto esta está muito vocacionada para o turismo externo, Gdynia é uma cidade onde se podem ver muitos veraneantes locais. Podemos observar uma praia repleta de gente, com boas infraestruturas, muitas crianças brincando num parque infantil em plena praia e, em local contíguo, uma marina repleta de embarcações de recreio. Na envolvente, muitos bares e restaurantes (almoçámos num deles), parque de diversões, jardins, numa área generosa, plana e de fácil acessibilidade, praticamente no centro da cidade. Neste país é mais difícil encontrar pessoas que dominem línguas estrangeiras, nomeadamente o inglês; nota-se  que a população não tem os níveis de educação que encontrámos em outros países bálticos. Mas parece que a Polónia apresenta um dinamismo económico que lhe garante um bom futuro. Não podemos esquecer que também ela é um país recentemente independente. Mas com a dimensão que tem e o rumo que leva, a Polónia será em breve uma potência económica e – espera-se – social.

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Notas:

[1] O itinerário que o Costa Pacifica cumpriu é excelente. Porém, o serviço a bordo – para quem conhece outras companhias de cruzeiro, nomeadamente a MSC – deixa muito a desejar. E, a propósito, vamos deixar uma dica preciosa a quem quiser viajar em navios de cruzeiro (e se preocupe com os preços). Existe um sítio na internet onde os preços dos cruzeiros ficam muito mais baratos, em muitos casos, a menos de metade do preço: http://www.cruisedirect.com.

[2] São nove os países bálticos. Destes, apenas não visitámos a Dinamarca. Estivemos em Alemanha, Suécia, Finlândia, Rússia, Estónia, Letónia, Lituânia e Polónia.

[3] A Grande Guerra do Norte foi uma das maiores da região báltica. Nela se defrontou o Império da Suécia contra uma tríplice aliança formada por Dinamarca-Noruega, Saxónia-Lituânia-Polónia e Rússia. Comandada pelo jovem Carlos XII, a Suécia subjugou todos os adversários até ser derrotada pela Rússia na batalha de Poltava, em 1709, obrigando Carlos XII a exilar-se em território do Império Otomano. A guerra porém ainda se arrastaria por mais 12 anos (durou de 1700 a 1721) e terminou com o Tratado de Nystad, entre russos e suecos, que se confrontariam de novo em 1741-1743 e em 1788-1790. E não se pense que foram apenas estes os confrontos entre a Suécia e a Rússia, que se degladiaram ao longo dos séculos XV, XVI e XVII (e ainda antes, na Idade Média, embora a Rússia ainda não tivesse o seu nome atual), por várias vezes, assumindo-se como as duas grandes potências da região. Uma história do Báltico, ainda que muito resumida, não caberia apenas em um artigo deste blogue.

[4] A Ucrânia, evidentemente, não faz parte dos países bálticos. A Rússia, sendo o maior país do mundo, tem fronteiras longuíssimas, que vão muito para lá do Báltico e que, no quadrante ocidental, cortam praticamente a Europa de Norte a Sul; uma extensa zona, historicamente conflituosa, face a interesses geopolíticos divergentes.   

[5] Câmara Municipal.

[6] Tal como o húngaro e o estoniano, o finlandês é considerado, pela maioria dos linguistas, uma língua fino-úgrica, uma sub-família das línguas uralianas. Pensa-se que as origens das línguas fino-úgricas remontem ao terceiro milénio antes de Cristo, algures no norte e centro da atual Rússia, a oeste dos Montes Urais.

[7] Por toda a região báltica existe um número infindável de ilhas. Estocolmo, Helsínquia e São Petersburgo estão localizadas sobre ilhas. Isto sugere que a profundidade média desse mar deve ser baixa. Notámos ainda que no Báltico a navegação é intensa, devendo este mar ser o principal meio para o comércio entre os países da região.

[8] Cidade mais ocidentalizada, mas não a mais ocidental. Existe um enclave russo chamado Kaliningrado, que também fica no Báltico, mas mais para ocidente, entalado entre a Lituânia e a Polónia, que é a ponta da lança que a Rússia tem na Europa. Este pequeno estado (oblast) russo é simultaneamente o nome da sua principal capital. Uma cidade conquistada na sequência da II Guerra Mundial, uma cidade hoje completamente degradada, que deve o seu nome a um amigo de Estaline,  Mikhail Kalinin, mas que foi durante centenas de anos uma cidade próspera e magnífica – a cidade onde nasceu o grande filósofo Immanuel Kant – a bela cidade medieval de Konigsberg, capital da Prússia Oriental.

[9] A Estónia e a Letónia faziam parte da região histórica da Livónia, muito disputada entre as potências do Báltico (sobretudo russos e suecos)ao longo dos anos.

[10] Cerca de vinte cinco quilómetros. Gdynia, Gdansk e a cidade termal de Sopot formam a região metropolitana de Tricity, a qual tem uma população de mais de um milhão de habitantes.

A Alemanha e a Europa

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Herr Wolfgang Schäuble.

É da História. Quando a Alemanha pôde decidir algo sobre a Europa, decidiu mal. A maior parte das vezes, como se sabe, com consequências catastróficas. E a História, que “nunca se repete”, tem uma tendência incrível a repetir-se quando se trata dos alemães.

Hoje, corremos todos o risco de assistir a mais uma repetição da História, se permitirmos que personagens intragáveis, como Wolfgang Schäuble, decidam por nós.

Isto sabem os ingleses muito bem. Por isso, com o seu espírito pragmático, mantêm-se sabiamente com um pé dentro, e outro fora, da União Europeia.

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Foto copiada de ouropel.blogspot.com

A “Peregrinação” de Fausto Bordalo Dias

A “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, é uma daquelas obras incontornáveis da cultura universal. Escrita após uma viagem de 21 anos pelo Oriente (Mendes Pinto saiu de Lisboa em 1537 e regressou em 1558), e editada pela primeira vez em 1614 (cerca de 30 anos após a morte do autor), causa, ainda hoje, muita polémica.

Desde logo, pelo longo período que medeia entre as aventuras (e desventuras) da viagem e a entrega do manuscrito (pela filhas de Fernão Mendes) para publicação. Seguramente este (o manuscrito), cujo original está hoje perdido, passou por várias mãos… Teria sido alterado?

Depois, há várias questões que se prendem com o conteúdo da obra: a linguagem, a toponímia, a reconstituição de percursos e personagens. Por exemplo, quem foi esse corsário português chamado António de Faria? (Aquilino Ribeiro aventou a hipótese de que fosse o próprio Fernão Mendes). E o Coja Acem? Não há unanimidade, como seria de esperar, e é, de resto, impossível comprovar ou desmentir cada um dos episódios desta imensa obra. A “Peregrinação” tem 226 capítulos e mais de 800 páginas [1]. Porém, uma coisa é certa: a maior parte do que Fernão Mendes narra é verdade. Esta é a conclusão a que chegam os investigadores, nacionais e estrangeiros. Há quem diga mesmo que, à medida que se são vão ampliando os estudos, Fernão Mendes mente cada vez menos. Uma alusão evidente ao trocadilho “Fernão, Mentes?”, que alguns dos mais céticos colaram a este aventureiro de Montemor.

Por fim, as questões mais filosóficas. Que tipo de obra é a “Peregrinação”? O que a motivou? Qual a intenção de Mendes Pinto ao escrevê-la? Será uma sátira, como pretende a historiadora americana, Rebbeca Catz? Uma busca interior, um caminho de conversão, como defende o professor da Universidade do Algarve, António Rosa Mendes?

Ciente destas e de outras questões sobre a obra em causa, estaria e estará, seguramente, Fausto Bordalo Dias, que, no entanto, as abordou de uma forma original. Como? Criando em cima daquela obra-prima uma outra obra-prima. Este autor, ao contrário do primeiro, não saiu de Lisboa – e a sua viagem foi (pelo menos até certo ponto) toda interior. Daí resultou um trabalho que é, sem dúvida, a melhor (re)interpretação da obra de Mendes Pinto. Desta feita, através de sons, viajamos, no espaço e no tempo, como já fizéramos através da “Peregrinação”. E, durante a viagem, podemos nós próprios – se para tal tivermos asas – “voar por cima das águas”…

Não é, de forma alguma, descabido considerar “Por Este Rio Acima”, um álbum de 1982 (no qual se integra a canção aqui apresentada), como “obra-prima”. A criatividade e a competência patentes na música, nas letras, nos arranjos, nos instrumentos e instrumentistas escolhidos; as vozes, incluindo a voz belíssima do próprio Fausto – tudo se harmoniza num nível muito acima das nossas cabeças. Acresce que, tal como a obra que a inspira, esta é uma criação caracteristicamente portuguesa. Mas não seria obra-prima se não fosse universal.

“Por Este Rio Acima” é a primeira obra de uma trilogia, intitulada “Lusitana Diáspora”. A segunda obra foi o álbum “Crónicas da Terra Ardente”, de 1994, baseado na “História Trágico-Marítima”, uma relação de naufrágios, compilados por Bernardo Gomes de Brito, e publicada em dois tomos em 1735 e 1736. A terceira (e última) obra foi o álbum “Em Busca das Montanhas Azuis”, de 2011, o qual já não se baseia nas viagens marítimas dos portugueses, mas na descoberta do interior do continente africano.

Fausto criou doze álbuns de originais ao longo de mais de 40 anos de carreira. A sua vida está desde cedo ligada ao mar e à apetência marítima dos portugueses. Fausto Bordalo Dias nasceu em 1948, no interior do navio “Pátria”, algures no Atlântico, entre Angola e Portugal.

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Notas:

[1]  Pelo menos no exemplar que possuo da Relógio d’ Água… Acrescente-se que a esmagadora maioria dos historiadores concorda sobre a impossibilidade de decifrar completamente a “Peregrinação” São os casos do holandês Arie Pos e o algarvio Rui Manuel Loureiro (ver a obra Fernão Mendes Pinto e a Projeção de Portugal no Mundo, Editora Húmus, da Universidade do Minho, 2013).

Dois romances excelentes sobre o século da barbárie

DSC03323Nos últimos quinze dias embrenhei-me nas (no total, quase mil) páginas destes dois romances históricos, baseados em rigorosas investigações e pesquisas, por parte dos seus autores, respetivamente, o britânico Martin Amis e o cubano Leonardo Padura. O primeiro narra-nos a vida de três personagens, em Auschwitz, e, o segundo, as peripécias que envolveram a morte de Trótski, perpretada pelo catalão Ramón Mercader. Como pano de fundo, respetivamente, nazismo e estalinismo, os dois regimes totalitários da História da Humanidade e da História do século XX.

O que há de comum nestes dois regimes? Em primeiro lugar, ambos se baseiam em profecias, em doutrinas que apregoam um destino histórico (aquilo que Popper apelidou de historicismo). Em segundo lugar, ambos apostam na destruição da capacidade dos indivíduos pensarem por si mesmos, na coletivização da sociedade, no seio da qual o indivíduo é apenas uma peça da engrenagem; um anónimo sem ambições ou vontade dentro da massa social.

Sem direito a pensar, cada indivíduo executa cegamente o que dele se espera – inclusive matar ou morrer – e deixa de ter vida pessoal. A despersonalização acaba por acontecer, de facto. E só quando a grande massa da população atinge esse estádio se atinge igualmente aquilo a que podemos chamar de Estado totalitário.