Ranking dos 10 políticos portugueses mais detestáveis

plenário1º – Cavaco Silva, “O Conspirador”

2º – Paulo Portas, “O Oportunista”

3º – Nuno Crato, “O Contabilista”

4º – Passos Coelho, “O Liberal”

5º – João Semedo, “O Acusador”

6º – Rui Machete, “O Incompreendido”

7º – Nuno Melo, “O Malandreco”

8º – Maria Luis Albuquerque, “A Alemã”

9º – Poiares Maduro, “O Infrassumo”

10º – Marcelo Rebelo de Sousa, “O Quadrilheiro”

 

 

O último ranking fora publicado em janeiro de 2014 e, daí para cá, pouca coisa mudou no topo da tabela. Cavaco, “O Conspirador”, mantém-se na primeiríssima posição, pelo quinto ranking consecutivo. Paulo Portas, “O Oportunista”, trocou de posição com Nuno Crato, “O Contabilista”. João Semedo, “O Acusador”, teve a maior subida, passando da nona para a quinta posição. Entrada absoluta de Maria Luis Albuquerque, “A Alemã”. Regresso de Marcelo Rebelo de Sousa, “O Quadrilheiro”. Saídas de Aguiar-Branco, “O Consultor”, e António José Seguro, “O Desastrado”.

Alfama à solta

Metade do gesto elegante é pura hipocrisia. Mas isso não lhe retira o encanto.

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É o Belo que nos distingue dos animais e nos diferencia uns dos outros.

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O ser humano que se aventura no desconhecido, qual passarinho lançado no espaço antes do acordo da mãe, é, em geral, o mais nobre e generoso.

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O milagre económico da Direita redunda, em geral, em desastre social; o milagre social da Esquerda redunda, em geral, em desastre económico.

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Os sintomas de clubite aguda são, amiúde, a ponta do iceberg de uma patologia crónica, por definição incurável, face à incapacidade do indivíduo reconhecer – e tão pouco admitir – o seu estado de mania ou depressão.

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A Liberdade, individual ou coletiva, é algo tão amplo, profundo e desconhecido que chega a ser assustador. É por isso que as regras sociais não são suficientes, precisamos de outras balizas para não nos sentirmos perdidos no mundo. A adoção de dogmas, pessoais ou coletivos, é o preço a pagar pelo medo da Liberdade.

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São desinteressantes as entrevistas em que os convidados falam de si próprios. As vidas privadas têm, por vezes, interesse público, mas quase nunca quando analisadas em causa própria. É entediante a conversa sobre idiossincrasias de personalidades inchadas pelo sopro mediático. Fernando Pessoa tinha razão: a publicidade da vida privada é, esteticamente, algo desprovido de valor.

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Nenhuma carreira produz resultados tão definidos como a de advogado – 1% de heróis e 99% de cretinos.

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Os problemas da Esquerda em relação ao Estado resumem-se a uma questão de cor.

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Esquerda e Direita são como dois sacos onde cada um – de acordo com a sua história pessoal – coloca o que quer. Eu há muito que despejei cada um deles. E para que não restassem dúvidas, lancei os sacos no lixo.

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É verdade, às vezes, fico hesitante. É que vejo tanta gente com ar professoral, convencida da sua sapiência, que fico de pé atrás – quem me diz que não acontece o mesmo comigo?

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Não é procurando provas que confirmem a nossa posição que a fortalecemos. Fazêmo-lo buscando provas contrárias à nossa posição.

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Os ideólogos mais empolgados continuam falando como se estivéssemos ainda na Guerra Fria. Entretanto o mundo “pula e avança”.

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Há “filósofos” que nos dizem como devemos pensar (ou comportar-nos) e há filósofos que não nos dizem como devemos pensar (ou comportar-nos). Só estes últimos são filósofos verdadeiros. Quem não reconhecer a diferença entre os dois géneros não percebe nada de Filosofia.

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Há duas obras que nos fazem entender melhor o que são o totalitarismo e o historicismo, e ambas escritas na ressaca da II Guerra Mundial. Refiro-me aos trabalhos monumentais de Karl Raimund Popper e de Hannah Arendt, respetivamente, “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” e “Origens do Totalitarismo”, duas das obras mais importantes do século XX.

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Em matéria política, a sabedoria está do lado do homem comum, não do dos intelectuais.

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As melhores sociedades humanas são aquelas onde se tenta minimizar o mal. As piores são aquelas onde se tenta maximizar o bem.

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Governar um país é como navegar à bolina. Ora para a esquerda, ora para a direita, Apenas o tempo necessário, para não haver desvios de rumo.

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Córdoba, Granada e Gibraltar

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Jardins do Alcazar dos reis cristãos, em Córdoba.

Do sul de Portugal é facílimo dar um salta à Andaluzia, ali mesmo ao lado,  e conhecer belas cidades como Huelva, Sevilha, Cádiz, Málaga, etc.  Nesta pequena viagem de três dias optamos por duas cidades espanholas – Córdoba e Granada – e uma do Reino-Unido – um verdadeiro espinho cravado num dedo de Espanha – Gibraltar.

Algo ressalta, desde logo, quando se termina uma viagem por estes três lugares, geograficamente bem próximos: o seu passado árabe. De facto, Córdoba foi no século X sede do esplendoroso califado Omíada, Granada foi o último reduto árabe na Península Ibérica, e Gibraltar foi o lugar onde, em 711, o berbere Tariq ben Ziad desembarcou com sua tropas e abriu caminho para os árabes conquistarem a Ibéria. São, por isso, cidades não apenas históricas, mas também cidades carregadas de simbolismo.

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Pormenor de uma porta, em Córdoba.

Em Córdoba visitámos a Judiaria, a Mesquita-Catedral, a Alcazar dos reis cristãos, a ponte romana, a rua das Flores e a estátua de Maimónides. Este é o nome grego do  rabino, professor, mestre, filósofo e médico judaico, Moshe Ben Maimon. A sua vasta obra, ainda hoje estudada e comentada, teve e continua a ter um impacto tão importante na religião judaica que ficou célebre o epitáfio medieval que dizia: “Desde Moisés (da Bíblia) até Moisés (Maimónides) não houve ninguém como Moisés”[1].

Por seu turno, Granada é uma cidade maravilhosa. O bairro antigo e árabe, chamado Albaicín, é encantador. Subindo-o, desde o centro da cidade, pode observar-se, na colina oposta, tendo por trás a Serra Nevada, a célebre Alhambra, que inclui um castelo cristão, um complexo palaciano e fortaleza de origem árabe, da dinastia Nasrida, e ainda jardins e hortas circundantes, a que chamam Generalife. Tudo isto é Património Mundial da UNESCO, mas o surpreendente é mesmo tudo o que é árabe – sobretudo o bairro Albaicín e o complexo palaciano de Alhambra.

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Azulejo do palácio árabe de Alhambra, em Granada.

Em Albaicín, a comparação com Alfama é quase inevitável. E, lamentavelmente para nós, Alfama fica a perder. Albaicín é muito mais limpo e preservado. As suas casas com pátios, interiores ou exteriores, sempre floridos, são muitas vezes autênticos miradouros onde os olhos pousam e repousam sobre a cidade. Claro que o pequeno rio Darro que corre entre as colinas de Alhambra e Albaicín não tem a grandiosidade do Tejo. Mas só talvez se um dia Alfama se tornar património mundial, a gente possa aqui viver com o orgulho que se sente em Granada.

Por fim, Gibraltar: um daqueles lugares que fascinam geólogos, físicos e outros cientistas da naturais: uma montanha de rocha calcária elevada do fundo do mar pelas forças descomunais da Natureza. Gibraltar pertence à Grã-Bretanha desde 1713, ano em que os espanhóis cederam o território àquele país, a título perpétuo, após a Guerra da Sucessão.

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Pormenor de coluna no palácio árabe de Alhambra, em Granada.

Subir o rochedo de Gibraltar não deixa de ser uma aventura, mesmo que o façamos de carro, como foi o nosso caso. A estrada é estreita e íngreme, e o esforço dos percursos que têm de ser feitos a pé é compensado com vistas deslumbrantes em todas as direções. As montanhas do norte de África impõem-se a Sul. Pelo caminho vêem-se famílias inteiras de macacos da berberia, tão habituados aos turistas, que chegam a posar para as fotografias.

Neste percurso ascendente – que é a principal atração turística do rochedo – podem visitar-se grutas, castelos e monumentos, mas o mais impressionante são sem dúvida os túneis cavados na rocha pelos britânicos, aquando do grande cerco feito pela Espanha (1779-1883) e também na II Guerra Mundial. Um dos túneis corta o rochedo de sul para norte, tendo pelo meio aberturas que deixam passar apenas o olhar humano (por vezes ajudado por binóculos) e os canos dos canhões. Dali é possível controlar o território espanhol, a baía de Algeciras e o próprio Mediterrâneo.

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Gibraltar. Ao fundo, África.

Gibraltar e o monte Musa, em África, constituíam na Antiguidade as chamadas Colunas de Hércules. Entre elas ficava uma porta para o desconhecido[2], – uma passagem que liga o Mediterrâneo ao Atlântico e onde passa hoje um navio a cada seis minutos. Não é difícil calcular a importância estratégica de Gibraltar. Nem surpreende que tanto o Reino-Unido quanto os gibraltinos não queiram abrir mão deste simbólico território.

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Notas:

[1] “Raízes dos Judeus em Portugal”, Inácio Steinhardt

[2] De facto, como o próprio nome indica, o Mediterrâneo era o centro do mundo. Para além, ficava o desconhecido.

 

O preconceito ideológico antiamericano

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Parece-me evidente que o antiamericanismo tem crescido no mundo. Não sei se tem crescido também nos países ocidentais. Sei, porque o vejo todos os dias, que é efetivo, quer no Brasil, quer em Portugal.

Se, por um lado, esse sentimento é compreensível – sobretudo em tempos de grave crise económica e financeira como os atuais – por outro, é completamente ilógico. Em primeiro lugar, porque os EUA são compostos por homens e mulheres do mundo inteiro, são, afinal, muitos de nós – ocidentais, europeus, portugueses, brasileiros. Em segundo lugar, e principalmente, porque a partir do momento em que os EUA se tornaram o país dominante no mundo este ficou, de facto, muito melhor.

Os que criticam a política intervencionista americana esquecem-se de que, não muito antes dos EUA se tornarem a maior potência mundial, os países que o antecederam nesse papel dividiram entre si um inteiro continente. Sentados, confortavelmente, em torno de uma mesa, numa reunião em Berlim[1]. E que, para manterem seus impérios, alguns deles praticaram o extermínio sobre milhões de seres humanos[2].  Essa partilha imperial, inicialmente traçada a lápis, culminaria numa guerra fratricida, com duas partes distintas – a I e a II Guerras Mundiais – traçada, desta vez, com projéteis de diversas dimensões. E o extermínio ampliou-se, brutalmente, quase até o inconcebível.

Se os EUA se demitissem do papel de líderes mundiais, é quase certo que a potência que ocupasse o seu lugar – e só um sonhador pode imaginar um mundo sem liderança, pois não há no mundo vazios de poder – seria pior. Claro que o exercício do poder, por mais democrático que seja, contém sempre alguma arbitrariedade e, consequentemente, alguma injustiça; e é ainda verdade que alguns presidentes americanos interpretaram de forma muito negativa, e por vezes trágica, o seu papel no mundo[3]. Mas isso não invalida que a supremacia militar dos EUA (entre outras) seja muito menos agressiva do que todas as que a antecederam no decorrer dos últimos séculos.

Essa supremacia iniciou-se ainda no decorrer da Grande Guerra e consolidar-se-ia com a Conferência de Paz que se lhe seguiu, em Paris[4], onde as ideias e propostas progressistas do presidente democrata Woodrow Wilson prevaleceram – ideias e propostas que defendiam a autodeterminação dos povos, a proteção das minorias étnicas e a criação da Liga das Nações[5]. Foi o estertor dos estados imperiais[6].

Apesar do desmantelamento dos impérios, muitos consideram, hoje, os EUA um país imperial. Isso deve-se sobretudo à ação americana durante a Guerra Fria e, mais recentemente,  às intervenções no Médio Oriente, nomeadamente no Iraque[7]. Cumpre dizer que esta foi, de facto, completamente despropositada, imprudente e injusta – uma reação irrefletida aos atentados de 11 de setembro. Tal não invalida, porém, que outras intervenções se justifiquem, como é o caso da presente luta contra o ISIS – o Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

A hostilidade aos americanos vem sobretudo de dois lados. Dos islamitas de todo o mundo (sobretudo dos radicais) e, no Ocidente, daqueles que, por preconceito ideológico, vivem ainda os tempos da Guerra Fria, apesar desta ter terminado há um quarto de século. Trata-se, como é obvio, da esquerda marxista, explícita ou envergonhada.

A grande diferença entre os americanos e os outros é que, nos EUA, em qualquer decisão, participam sempre várias pessoas que pensam de forma diferente entre si. Noutros países, quem participa das decisões são pessoas que pensam da mesma forma[8], subjugadas, sempre, seja por um ditador, seja pela crença cega numa religião ou ideologia. Os EUA – e os países ocidentais que partilham os mesmos valores – são a expressão última de um tipo de sociedade que se iniciou há 2.500 anos na Grécia Antiga – e o resultado de uma luta constante e interminável pela Liberdade e pela Democracia.

 

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A foto incluída neste post foi retirada do sítio http://www.taringa.net.

Notas:

[1] Conferência de Berlim, realizada entre 19 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885. Curiosamente,  foi proposta por Portugal. Participaram Grã-Bretanha, Bélgica, Dinamarca, Holanda, França, Espanha, Estados Unidos, Itália, Suécia, Áustria-Hungria, Império Otomano, Alemanha e Portugal.

[2] Na verdade, os negros exterminados em África eram considerados seres inferiores aos brancos pela maioria dos colonizadores da época.

[3] Os casos mais evidentes são os de Richard Nixon (Guerra do Vietnam) e George W. Bush (Guerra do Iraque).

[4] A Conferência de Paz de Paris decorreu durante cerca de um ano, entre janeiro de 1919 e janeiro de 1920.

[5] As ideias de Wilson foram anunciadas pela primeira vez ao Congresso dos Estados Unidos num discurso realizado em 8 de janeiro de 1918. Esse discurso ficou célebre e conhecido pelo discurso dos “quatorze pontos”. Ver em http://pt.wikipedia.org/wiki/Quatorze_Pontos.

[6] Um livro interessante sobre esta matéria é “Impérios em Guerra: 1911-1923″, org. de Robert Gerwarth e Erez Manela, Editora D. Quixote, Lisboa, 2014.

[7] Como é evidente, os americanos são também muito criticados por intervirem militarmente na defesa de seus interesses económicos. Mas, tal como o mundo está organizado hoje – e convém dizer que essa organização deve muito aos EUA – esses intervenções arbitrárias são cada vez mais difíceis, dado que são objecto de escrutínio por parte da comunidade internacional. e também da imprensa mundial, incluindo a própria imprensa (livre) norte-americana.

[8] De facto, os membros dos partidos marxistas/leninistas orgulham-se de pensarem todos da mesma maneira e de eclipsarem a sua individualidade no coletivo superior do Partido. Sobre este tema “individualismo/coletivismo”, ver artigo deste blog, http://ilovealfama.com/2012/10/19/por-que-deixei-de-ser-marxista/.

O primeiro império marítimo mundial

IMG_8321Parece haver apenas duas formas de nos posicionarmos face aos Descobrimentos Portugueses. Uma é considerada conservadora, atrasada, imperialista, de Direita. A outra anti-patriótica, ignorante, leviana, de Esquerda. Estes sentimentos antagónicos acirram-se ainda mais em tempos de crise, como o que vivemos atualmente.

No entanto, factos são factos, e os Descobrimentos foram efetivamente um feito extraordinário, não apenas da História de Portugal, mas também da História Universal[1]. Portugal alargou o mundo para lá do Mediterrâneo que – como o nome indica – era até então o centro da Terra. África, América do Sul, Índia, Ásia e, ao que parece, a própria Austrália[2] foram alcançadas pelos navios portugueses. Tal feito é ainda mais extraordinário se considerarmos a pequena dimensão de Portugal e o seu reduzido número de habitantes. A solução para o problema populacional foi encontrada através da miscigenação, por um lado, e pelo comércio de escravos (sobretudo para o Brasil), por outro.

Portugal foi no século XVI o país mais rico do mundo. Não apenas o mais rico, mas também o mais avançado nos campos científico e tecnológico. O nosso saber foi “de experiência feito”, como escreveu Camões, e essa experiência entrava-nos pelo Tejo num número impressionante de navios, oriundos, a cada dia, de todas as partes do mundo.

As nossas embarcações eram as melhores e as maiores que existiam e ainda hoje algumas delas são procuradas, como é o caso do galeão “Flor de la Mar”, afundado em 1511 nas águas costeiras de Sumatra, ainda antes de concluir meio-dia de viagem. Em 1992, a casa de leilões de arte Sotheby’s avaliou o tesouro afundado com o “Flor de la Mar”, a preços desse ano, em 2,5 bilhões de dólares[3]. Outro navio, o “Madre de Deus”, capturado nos Açores pelos ingleses[4], em 1592, foi conduzido a Inglaterra. Este navio era três vezes maior que qualquer navio britânico e vinha da Índia carregado de tesouros. A carga foi avaliada em meio milhão de libras esterlinas, uma soma astronómica, equivalente a quase metade de todo o tesouro inglês[5].

O império português foi um império marítimo pois, como vimos, não havia homens em número suficiente para ocupar as terras. Estabeleceram-se várias praças nas zonas costeiras, através das quais os portugueses controlavam e faziam o comércio. Ainda assim, em todos os lugares por onde passaram, deixaram legados culturais, seja no património edificado, seja na língua[6], nas artes, na religião ou em outros aspetos, como a própria gastronomia.

Portugal é um país voltado para o mar. Espanha, o único país com quem tem fronteiras terrestres, constituiu sempre uma espécie de barreira que nos obrigou a enfrentar o desafio marítimo. Nunca procurámos a expansão terrestre. Portugal abriu caminho para que outros impérios se lhe seguissem, sobretudo o holandês e, com uma implantação posterior mas também mais forte, o inglês. Portugal e Inglaterra foram velhos aliados contra espanhóis, holandeses e franceses. Claro que a Inglaterra, como país muito maior, se aproveitou muitas vezes das nossas fraquezas[7]. Mas é também verdade que mantivemos algumas colónias graças à proteção dos ingleses.

Outros países europeus, mais virados para o continente do que para o oceano, procuraram construir impérios pela via terrestre – sobretudo os casos russo e alemão[8] – e estes impérios terrestres haveriam de ser bem mais destrutivos que os marítimos, custando muito caro à Europa, dizimada em milhões de pessoas pelos regimes nazi e estalinista. Quando no final do século XIX os europeus decidiram repartir entre si o continente africano, Portugal já ali se implantara há 500 anos. A colonização africana foi brutal, sobretudo a belga e a alemã[9] – e isso conduz por vezes à discussão sobre colonizações “suaves” (se é que existem) e “brutais”.

A colonização portuguesa, apesar das idiossincrasias locais, foi, em alguns períodos, brutal. Há relatos de atrocidades cometidas pelos portugueses, praticamente em todos os lugares onde se implantaram. Mas nunca praticamos o extermínio. Até porque precisávamos dos habitantes locais para nos multiplicarmos e para conseguirmos a mão-de-obra necessária à manutenção dos territórios. A escassez de mão-de-obra foi, aliás, sobretudo no Brasil, uma das razões principais da prática da escravatura – o que considero a maior pecha da colonização portuguesa. Apesar da escravatura sempre ter existido e continuar a existir, talvez sob formas piores, tal não constitui desculpa para uma prática, sem dúvida, infame.

Hoje esse grande país chamado Brasil é uma miscelânea de índios, negros e portugueses, pontuada por habitantes de outros povos – um exemplo para o mundo de uma sociedade verdadeiramente inter e intra-racial. É por isso que faz todo sentido uma expressão popularizada, e não apenas em Portugal: “Deus criou o branco e o preto. Os portugueses criaram o mulato”.

O espírito português está bem retratado no livro “A Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto[10], um aventureiro que percorreu todo o sudeste asiático e viveu as mais incríveis peripécias até regressar a Portugal, passados 21 anos. Durante algum tempo pensou-se que esse relato fosse no mínimo exagerado e até fantasioso, mas os japoneses sempre confirmaram os episódios narrados que lhes diziam respeito e a historiadora americana, Rebecca Catz, professora da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, após estudo aprofundado, chegou à conclusão de que o relato é verdadeiro[11]. Aliás, só poderia ser verdadeiro, dado que o que se conta na “Peregrinação” apenas chegou ao conhecimento dos europeus vários anos depois da morte de Fernão Mendes Pinto. Ora, este não podia ter conhecimento daqueles factos se não os tivesse presenciado.

Hoje o império marítimo português não passa de uma memória. Mas o fascínio pelo mar continua intacto. Nas artes, na gastronomia, no lazer, no imaginário e no horizonte de Portugal continua presente o mar.

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Notas:

[1] Adam Smith, o célebre economista liberal escocês, considerou os Descobrimentos Portugueses como um dos maiores feitos da humanidade.

[2] Também a América do Norte tem sido reclamada como uma descoberta dos portugueses. Ver artigo deste blog sobre a Pedra de Dighton.

[3] Martin Page, Portugal e a Revolução Global, Nova Fronteira, Brasil, 2011. 

[4] Apesar de os ingleses terem sido quase sempre nossos aliados, isso não aconteceu durante os 60 anos em que fomos governados pela Espanha, após a crise dinástica provocada pela morte de D. Sebastião, dado que a Espanha era inimiga da Inglaterra.

[5] Nigel Cliff, Guerra Santa, Globo Livros, Brasil, 2013.

[6] “Obrigado”, por exemplo, deu origem, no Japão, a “arigato” e “pão” a “pan”.

[7] Ver artigo deste blog.

[8] Também o francês (com Napoleão) e outros, embora não tão devastadores.

[9] Os belgas mataram milhões de seres humanos, no Congo, e os alemães quase exterminaram o povo herero, na atual Namíbia.

[10] Fernão Mendes Pinto, A Peregrinação, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2001.

 

Alfama vence Marchas Populares 2014

marcha d'alfama 2014Pelo segundo ano consecutivo, Alfama vence o concurso das Marchas Populares de Lisboa, com o tema Gira o Sol sobre Alfama. Predominaram as cores amarela e verde – o que fez lembrar inevitavelmente o Brasil…

Eis a classificação da edição deste ano, a 82ª.

1.º Alfama – 246 pontos

2.º Alcântara – 238 pontos

3.º Bairro Alto – 226 pontos

4.º Alto do Pina – 218 pontos

5.º Bica – 212 pontos

6.º Madragoa – 206 pontos

7.º Carnide – 201 pontos

8.º Ajuda, Graça, Lumiar e Mouraria – 200 pontos

12.º Marvila – 199 pontos

13.º Campolide – 198 pontos

14.º Beato – 194 pontos

15.º Castelo – 192 pontos

16.º S. Vicente – 188 pontos

17.º Santa Engrácia – 185 pontos

18.º Benfica – 182 pontos

19.º Bela Flor – 166 pontos

20.º Belém – 162 pontos

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Nota: a foto deste artigo foi retirada de www,jn.pt (Jornal de Notícias).

 

A Morte de Orfeu

Orfeu era filho de uma Musa e de um príncipe da Társia. Tendo herdado da mãe o dom da música, ninguém podia resistir à sua arte de tocar e cantar. Suas melodias faziam mover os rochedos dos montes e mudavam o curso dos rios.
Um dia, Orfeu conheceu a bela Eurídice e acabou por casar com ela. Ambos eram muito felizes. Passado pouco tempo, porém, Eurídice foi mordida por uma serpente, e morreu. A dor de Orfeu foi tão intensa que resolveu descer aos Infernos, numa tentativa desesperada de recuperar a sua amada.
Empreendeu então uma temível viagem ao mundo das profundezas, algo que jamais alguém se atrevera fazer. Tangeu a sua lira e conseguiu que todos os vigilantes o deixassem passar. Ali chegado, cantou uma canção tão bela e pungente que o senhor do Hades e sua mulher se aproximaram para escutar melhor…
“Ninguém, sob a magia de sua voz, era capaz de lhe recusar fosse o que fosse; arrancou lágrimas de ferro a Plutão e moveu o Inferno a restituir o que o Amor procurava”.
Entregaram-lhe Eurídice, mas com uma condição. Não devia olhar para trás, enquanto ela o seguisse, durante o retorno à superfície terrestre. Saíram ambos pelos portões do Hades e encetaram a subida pelo caminho que os conduziria ao mundo dos vivos. Orfeu ia na frente e sentia, por entre as trevas, que Eurídice o seguia, mas ansiava por olhar de relance para certificar-se de que assim era. Estavam quase chegando, a luz do dia já inundava o caminho e Orfeu rejubilava de alegria. Olhou para trás… cedo de mais! Eurídice ainda vinha na caverna. Estendeu os braços numa tentativa desesperada de agarrá-la, mas o vulto da amada esgueirara-se de novo para o mundo subterrâneo. Orfeu só conseguiu ouvir uma voz débil dizer “Adeus”!
Tentou segui-la, mas tal não era permitido. Os deuses não consentiam duas entradas no reino dos mortos a alguém ainda vivo. Vagueou então pelo mundo, sem nada para além da sua lira, que tocava continuamente. Seus únicos companheiros eram os rochedos, os rios e as árvores, que o escutavam deleitados. Assim passou muito tempo até que, enfim, um bando de Ménades foi ao seu encontro. Assassinaram-no, despedaçando-o, membro após membro, acabando por atirar a cabeça ao tumultuado rio Hebro, que a transportou rio abaixo, até a foz, e daí às praias de Lesbos, onde as Musas a recolheram e enterraram, no santuário da ilha, ainda perfeitamente intacta, apesar da força corrosiva das águas. Reuniram os membros desconjuntados do seu corpo e depositaram-nos num túmulo, no sopé do monte Olimpo.
É aí que ainda hoje os trinados dos rouxinóis são mais melodiosos do que em qualquer outro lugar.

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Fonte: “A Mitologia“, Edith Hamilton.